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O bicho homem

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 Estive a ver com muito interesse um programa no canal Caça e Pesca que a NOS fez o favor de me oferecer.  O programa, em si, chamava-se "Em viagem: na Foz do Zambeze", o assunto era... tiros aos bichos, os protagonistas são os próprios bichos, um espanhol armado com 3 pretos e um branco, que pelo portunhol suspeito seja português, e uma arma de grande calibre.  O enredo é simples, os bichos lá andavam a fazer pela vida muito sossegados a pastar e o espanhol com a sua trupe, aproxima-se por trás e pumba. Mata o bicho! Depois de dar uma palmadinha de felicitação nas costas do Portuga, aproxima-se muito condoido e como se não tivesse nada a ver com o assunto e estivesse ali meramente por acaso, diz fazendo uma festa no animal estendido no solo que se esvai em sangue "Qué bonito, qué bonito". .... pois era, senhor caçador, pois era.

Lágrimas de mãe

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Toquei-lhe na orelha procurando memorizar na ponta dos meus dedos os seus contornos, tenho pouco tempo, muito pouco tempo, dois ou três meses no máximo. Estamos em Outubro e três meses antes tinham dito seis meses. Seis meses, isto daria…. A sua mão esquerda em cima da mesa da cozinha, as unhas estriadas e no dedo anelar duas alianças, uma de ouro e outra de prata. Procuro decorar tudo. Mas quem pousa a mão em cima da mesa não é ele. A última vez que o vi era Agosto e estava de partida para o Algarve e ele à janela da varanda despedir-se de mim com aquele olhar que me deixou de herança. Na altura achei-o magro, mas pensei que era a ausência da barba recém cortada que o tornava diferente aos meus olhos, não vi que ele estava a envelhecer, as análises… tinha-as feito uns dias antes. Agora não era ele, mas antes uma sombra do que fora. A médica, com o resultado dos exames em cima da secretária, recebe-me com palavras que eu não entendo, pergunto-lhe o que quer dizer e ela explica-...

Apagão

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  Com o apagão de ontem ficámos a saber: 1. Que a desactivação das centrais de Sines e do Pego foi uma grande ideia de António Costa; 2. Que ir para Presidente do Conselho Europeu também foi uma excelente ideia de António Costa; 3. Que basta os espanhóis levantarem um dedo que Portugal torna-se num país Subsariano, sem água, luz, comunicações, mobilidade e com acesso restrito a bens alimentares 4. Que basta os franceses levantarem um dedo que Portugal torna-se num país Subsariano, sem água, luz, comunicações, mobilidade e com acesso restrito a bens alimentares; 5. Que basta alguém com um alicate na mão que Portugal torna-se num país Subsariano, sem água, luz, comunicações, mobilidade e com acesso restrito a bens alimentares; 6. Que é nas noites mais escuras que se vêem mais estrelas; 7. Que a Protecção Civil só aparece quando chove e quando há câmaras de televisão por perto; 8. Que há vida para além do sofá; 9. Que o síndrome do papel higiénico continua latente em...

Reflexões a bordo do Carnide

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  Hoje acordei pensativo. Ou melhor, tornei-me pensativo. É o que dá uma viagem de barco de 30 minutos sem nenhum livro por perto. Não que não tenha na estante uma série de livros em fila de espera para serem lidos, mas simplesmente porque não me apetece. Eu e a leitura estamos de costas voltadas, não por estarmos zangados mas como dois bons amigos que podem fazer uma longa viagem sem trocar uma única palavra, simplesmente porque não há necessidade. Assim estou eu e os livros, e quando não tenho livros, penso, recuo no tempo e viajo. Sim porque já tenho idade suficiente para recuar no tempo e encontrar mundos diferentes do actual… ou dos actuais pois foi por aqui mesmo que os meus pensamentos derivaram. Da percepção do mundo e da interpretação que cada um de nós faz dele. Podemos dizer que há só um mundo ou existem vários? Um para cada um de nós. Cada pessoa tem um mundo e um Deus, o seu mundo e o seu Deus. Por esse motivo, as religiões que pregam o monoteísmo pregam apenas um conc...

Uma questão de linguagem

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 A propósito de uma notícia que li aqui no facebook lembrei-me de um episódio que se passou comigo há alguns anos e do qual já me tinha esquecido por completo Encontrava-me eu, na altura deste episódio, destacado nas OGMA, em Alverca, a tentar cumprir o melhor que sabia e que podia a missão de gerir o Posto Médico. Era uma realidade muito diferente da que eu estava habituado, uma população fortemente sindicalizada e avessa à abertura de serviços a entidades privadas e onde, mercê de um passado recente, ainda reinava com um comportamento por vezes quase militar onde as pessoas estavam habituadas a apresentar-se pelo número mecanográfico em vez do seu próprio nome e então logo a mim que gozava de uma experiencia militar de quatro horas inteirinhas passadas no quartel de Setúbal. Então, estaria eu talvez no primeiro quarto do meu mandato de quatro anos, quando recebi uma chamada do Parque de Saúde de Lisboa (vulgo Júlio de Matos para os que se recusam a actualizar como eu). Do outro l...

Deliciosamente sem juízo

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  Juízo! Detesto que me digam para ter juízo! Se há duas coisas que não gosto de ter é razão e... juízo! Acho que as pessoas ajuizadas e sempre cheias de razão são um tédio e têm como único objectivo neste mundo aborrecer de morte as outras pessoas! Sempre muito ponderadas, sempre muito cautelosas, sempre muito medrosas. Só para se certificarem que terão razão em tudo o que disserem ou farão, são incapazes de tomar uma decisão por impulso, dizer sim só porque sim e não porque, só após uma análise cuidadosa do problema a consciência as aconselhou finalmente a dizer sim. Fazem da vida um jogo de xadrez onde tudo se resume a estratégia e a movimentos ponderados de causa e consequência. Poderão vir a ser bem sucedidos na vida mas nunca terão momentos de maravilhosa genialidade. Com os olhos postos no chão, nunca tropeçarão é verdade, mas também nunca verão a cor do céu. A vida, felizmente, não tem livro de instruções e dá-nos a chance de errar e de aprender com os nossos erros. Quem nã...

Vidas

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  Enrolada no tapete da sala D. Charlotte Theodora Maria Ceguinha dorme a sono solto, nem dá por mim quando lhe aproximo um dedo do nariz, ou melhor, dá porque vejo as narinas a sorver o ar e os bigodes tremelicar à procura de qualquer coisa porque valha a pena abrir os olhos. Não encontra e permanece impávida e serena se queixo para cima mostrando a pequena malha branca que lhe tinge o pescoço. Dou voz ao meus pensamentos “o dia de hoje igual ao dia de ontem e igual ao dia de amanhã” e depois, só para mim, penso que não há vida melhor e que já merecia eu próprio uma vida assim: sem objectivos, sem preocupações, sem ambições. Apenas viver. Junto à rotunda da BP, uma pequena mancha branca agita no ar a cauda e as patas que já não o vão levar a lado nenhum, o resto do corpo está imóvel. Terá três meses quanto muito e há um minuto atrás estaria convencido que o seu dia de hoje seria igual ao dia de ontem e igual ao dia de amanhã. Contorno-o com o carro e vejo-lhe os olhos azuis esgaze...