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Estações de Metro e da vida

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  Os olhos divagam, perdidos, por outros olhos perdidos que vêem muito para além da carruagem do metro apinhada de gente. Vêem para o mundo que cada um tem dentro de si, para o que aconteceu no trabalho e para o que acontecerá mais tarde em casa. Fazem-se contas ao dinheiro que não chega, aos filhos que acordaram adoentados e para o resultado dos exames médicos que se fizeram na semana passada… se ao menos a dura realidade não passasse de um sonho que desaparecesse com um simples abanar de cabeça ao chegar à estação. Bela Vista! Dois olhares que se cruzam, passam um pelo outro e subitamente votam atrás como se uma memória longínqua os tivesse arrancado ao torpor do quotidiano e os lançasse numa viagem ao passado. Olhos que se prendem noutros olhos que há muitos, muitos anos se perderam um no outro. Boa sorte! Duas palavras e dois beijos na cara foram o seu presente de despedida naquela tarde quente do mês de Junho. Um seguia em frente nos estudos para tentar ser qualquer coisa na v...

Dia do Pai

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  Pai, tenho saudades.  Sabes que eu nunca gostei de pirolitos, nem de qualquer outra bebida com gás, mas eu queria tanto o olho de boi que estava dentro daquela garrafa… Hoje é me impossível olhar para uma garrafa de pirolito sem me lembrar de ti e daquela pioneira das roulottes que se encaixava num passeio à saída de Moscavide onde me compravas um pirolito e uma fartura. A fartura descia, o pirolito é que não. O gás subia-me ao nariz e dava-me vontade de espirrar. Mas eu gostava tanto daquele olho de boi…  Já não é Verão, e ao fim da tarde já sopra aquela frescura que nos arrepia os braços logo abaixo da manga da t shirt e nós sentados naquelas cadeiras de ferro, eu com o gás do pirulito a subir-me ao nariz e tu de volta com a tua cervejinha, loira, com borbulhinhas de frescura a subir dentro do copo que levavas à boca delicadamente levantando o dedo mindinho  O dono da roulotte, de bigode à Errol Flinn, passa o pano no alumínio do balcão e fala com dois clientes q...

A uma amiga perdida

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  Deitada na cama, de olhos esgazeados, Silvia olha o tecto branco do quarto. Aquele mesmo tecto que viu tantas outras noites, umas vezes de sorriso nos lábios, outras de lágrimas nos olhos e hoje de uma forma diferente, despegada e talvez um pouco triste.  Quando era pequena e corria descalça pela relva com a saia plissada branca e vermelha esvoaçando atrás de si, este dia parecia-lhe muito longe, inatingível até. Também, aos 10 anos quem pensa neste dia? Aos dez anos… tem agora cinquenta e sete, e pelo caminho foi perdendo os sonhos e as gargalhadas, as corridas pela relva foram substituidas pela corrida para o autocarro e os dias carregados de verde e azul celeste, por um lugar obscuro num Ministério cinzento. Cinquenta e sete de vida e quase quarenta perdidos. Sente uma lágrima começar a formar-se no canto do olho direito e depois de bem cheia, começar a descer silenciosa pelo rosto em direcção ao ouvido. É quente e sabe-a salgada, tantas vezes as saboreou. O tecto parece-...

Dia dos Namorados

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  E pronto! Passados 365 dias lá passámos nós outra vez pelo dia mais parvo do ano! 14 de Fevereiro, Dia dos Namorados! Dia do pessoal ir a correr aos centros comerciais com um único pensamento “epá, deixa-me lá ir comprar qualquer merda para aquela gaja!”, isto porque, logo pela manhã, descobriu-se meio escondido entre as camisolas da companheira um pequeno embrulho muito bem enfeitado com um laçarote e uma etiqueta em forma de coração. Sim, porque as mulheres lembram-se sempre com devida antecedência de ir ao centro comercial “comprar qualquer merda para aquele gajo!”. Trocadas as merdas, mais ou menos caras conforme a disponibilidade financeira, dá-se o beijinho da ordem e o “gajo” vai para o sofá enquanto a “gaja” lá fica a arrumar a cozinha como nos outros 364 dias do ano. É tão fácil dizer que amamos… basta ter uns trocos no bolso e ir ao Centro Comercial que lá o amor vende-se em pequenos pacotes muito bem enfeitados com um laçarote e uma etiqueta em forma de coração! No Ale...

Sir Arthur Conan Doyle

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  Derivado ao briolo que se faz semtir lá fora que nos convida para uma noite repousante à lareira e à falta de um filme de pancadaria na televisão, dei por mim a pensar que livros remetem para uma noite passada à frente do fogo? Dois autores vieram-me de imediato à mente, Jules Verne e Sir Arthur Conan Doyle. Como o primeiro demora sempre um pouco até ocorrer uma tempestade que nos faça apreciar o calor que estamos a gozar, optei por Doyle e o seu inigualável Sherlock Holmes que em duas oadinas. Se não menos, nos coloca nas ruas húmidas e nevoentas de uma Londres vitoriana de caleches e tipoias que nos obrigam a viajar enrolados em mantas de viagem e a tomar grogues quentes. Como os pensamentos e conversas são como as cerejas, vermelhos e com caroço, veio-me à memória uma história absolutamente verídica que se passou com o autor numa das suas deslocações a este cantinho à beira mar plantado e da qual muito gosto. Em primeiro lugar porque nunca aconteceu e em segundo lugar porque n...

O Açordas

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  Por vezes gosto de pensar em mim Como um fiel depositário de recordações, Pedaços de vida que alguém deixou a congelar Na criogenia da minha memória. Hoje, sem saber porquê, recordei o Açordas Demorei algum tempo até conseguir recordar o seu nome verdadeiro. Alberto, chamava-se Alberto! Mas para nós era, desde sempre. o Açordas. Puto beirão, rijo e de cara sardenta o seu destino seria traçado logo de criança pequena. Sem posses para sustentar mais um filho, os pais, lá de uma pequena aldeia da Beira Interior, o entregam à criação de uns tios de Lisboa.  Nunca o vimos lamentar-se de nada. Um homem é como tem de ser! Puto rijo cerrava os dentes e metia sempre o pé à bola. Porque um homem tem de ser rijo e não pode virar as costas a nada. Um homem não chora. Resistia a tudo o Açordas. Resistia a tudo, menos à corrente de um rio da sua terra que um dia, tendo-o de visita,  o arrastou nas suas águas para um lugar onde as pessoas já não precisam de dar o corpo às bolas chutad...

Eleições Presidenciais 2015, uma análise ao perfil dos candidatos (quando ainda me dava ao trabalho)

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  Como toda a gente já deve ter reparado sempre me pautei por ser uma pessoa muito conscienciosa dos meus deveres cívicos, nomeadamente e muito particularmente no que concerne à vida política deste país pelo que já me encontro em plena análise das personalidades sobre quem o meu voto presidencial irá recair no próximo dia 14 e Janeiro Nesta profunda análise tento esquecer o partido que suporta a candidatura e o ruído supérfluo que se gera em volta de cada candidato para só me debruçar sobre o âmago da questão, o que realmente interessa.  Sem qualquer ordem específica, a não ser ter dado prioridade as senhoras como o deve fazer um cavalheiro, debrucei-me primeiro sobre a Maria de Belém. Ora bem, a Maria de Belém... não serve!  E não serve porquê, poderão perguntar. Não serve porque se chama Maria de Belém e ter uma Maria de Belém em Belém não soa bem! Causa confusão nas conversas de autocarro. -  É pá já viste aquela gaja que agora está em Belém?  - Quem?  -...