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De cabeça perdida

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 Aos domingos pela manhã e enquanto não posso por a televisão aos tiros para cá e para lá por causa do barulho, costumo passar pelas notícias da CMTV. Em primeiro lugar porque há uma locutora giríssima e em segundo lugar por que me dá prazer ouvir a retórica dos repórteres de província a fingirem-se eloquentes e armados de uma expressão assarapantada a repetir a mesma história durante 10 minutos para ver se ocupam tempo de canal. Mesmo que a notícia seja pequenina e se possa transmitir com fidelidade em duas frases, eles teimam em ocupar 12 minutos do seu tempo de antena e da nossa paciência para dizer que a D. Carlota atravessou a estrada fora da passadeira e foi colhida por uma bicicleta conduzida à mão por um amola tesouras que fugiu a sete pés deixando para trás três varetas de guarda chuva e uma flauta com que ele anunciava a sua presença. Mas o que me leva hoje a escrever estas linhas não é a menina bonita nem  os repórteres assarapantados, mas uma notícia transmitida co...

A rapaziada

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  Sentado nas costas do banco de jardim que ficava por baixo da Sperm Tree, árvore que acolhia a malta por aqueles tempos e que recebera aquele distinto apelido pelo característico aroma que libertava, solto uns últimos acordes da harmónica antes de a guardar no bolso do blusão de ganga coçada. “Toca mais, toca mais”, pede o Mota.  Ninguém sabe como é que o Mota passou a fazer parte do nosso grupo de amigos, subia todos os dias de uma Moscavide cinzenta e de céus estreitos onde morava, para passar um pouco do seu tempo naqueles Olivais de amplos céus azuis e verdes relvados a perder de vista. Não sei porque me pediu para continuar a tocar, a única coisa que eu conseguia fazer era arrancar uns acordes tristes daquele instrumento que davam expressão ao que me corria na alma por aqueles meus 20 anos de juventude perdida. Faltava-me algo, já naquela altura sentia que me faltava um bocado de mim, sempre faltara, e, nos momentos de maior solidão ou introspecção como lhe queiram cham...

Estações de Metro e da vida

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  Os olhos divagam, perdidos, por outros olhos perdidos que vêem muito para além da carruagem do metro apinhada de gente. Vêem para o mundo que cada um tem dentro de si, para o que aconteceu no trabalho e para o que acontecerá mais tarde em casa. Fazem-se contas ao dinheiro que não chega, aos filhos que acordaram adoentados e para o resultado dos exames médicos que se fizeram na semana passada… se ao menos a dura realidade não passasse de um sonho que desaparecesse com um simples abanar de cabeça ao chegar à estação. Bela Vista! Dois olhares que se cruzam, passam um pelo outro e subitamente votam atrás como se uma memória longínqua os tivesse arrancado ao torpor do quotidiano e os lançasse numa viagem ao passado. Olhos que se prendem noutros olhos que há muitos, muitos anos se perderam um no outro. Boa sorte! Duas palavras e dois beijos na cara foram o seu presente de despedida naquela tarde quente do mês de Junho. Um seguia em frente nos estudos para tentar ser qualquer coisa na v...

Dia do Pai

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  Pai, tenho saudades.  Sabes que eu nunca gostei de pirolitos, nem de qualquer outra bebida com gás, mas eu queria tanto o olho de boi que estava dentro daquela garrafa… Hoje é me impossível olhar para uma garrafa de pirolito sem me lembrar de ti e daquela pioneira das roulottes que se encaixava num passeio à saída de Moscavide onde me compravas um pirolito e uma fartura. A fartura descia, o pirolito é que não. O gás subia-me ao nariz e dava-me vontade de espirrar. Mas eu gostava tanto daquele olho de boi…  Já não é Verão, e ao fim da tarde já sopra aquela frescura que nos arrepia os braços logo abaixo da manga da t shirt e nós sentados naquelas cadeiras de ferro, eu com o gás do pirulito a subir-me ao nariz e tu de volta com a tua cervejinha, loira, com borbulhinhas de frescura a subir dentro do copo que levavas à boca delicadamente levantando o dedo mindinho  O dono da roulotte, de bigode à Errol Flinn, passa o pano no alumínio do balcão e fala com dois clientes q...

A uma amiga perdida

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  Deitada na cama, de olhos esgazeados, Silvia olha o tecto branco do quarto. Aquele mesmo tecto que viu tantas outras noites, umas vezes de sorriso nos lábios, outras de lágrimas nos olhos e hoje de uma forma diferente, despegada e talvez um pouco triste.  Quando era pequena e corria descalça pela relva com a saia plissada branca e vermelha esvoaçando atrás de si, este dia parecia-lhe muito longe, inatingível até. Também, aos 10 anos quem pensa neste dia? Aos dez anos… tem agora cinquenta e sete, e pelo caminho foi perdendo os sonhos e as gargalhadas, as corridas pela relva foram substituidas pela corrida para o autocarro e os dias carregados de verde e azul celeste, por um lugar obscuro num Ministério cinzento. Cinquenta e sete de vida e quase quarenta perdidos. Sente uma lágrima começar a formar-se no canto do olho direito e depois de bem cheia, começar a descer silenciosa pelo rosto em direcção ao ouvido. É quente e sabe-a salgada, tantas vezes as saboreou. O tecto parece-...

Dia dos Namorados

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  E pronto! Passados 365 dias lá passámos nós outra vez pelo dia mais parvo do ano! 14 de Fevereiro, Dia dos Namorados! Dia do pessoal ir a correr aos centros comerciais com um único pensamento “epá, deixa-me lá ir comprar qualquer merda para aquela gaja!”, isto porque, logo pela manhã, descobriu-se meio escondido entre as camisolas da companheira um pequeno embrulho muito bem enfeitado com um laçarote e uma etiqueta em forma de coração. Sim, porque as mulheres lembram-se sempre com devida antecedência de ir ao centro comercial “comprar qualquer merda para aquele gajo!”. Trocadas as merdas, mais ou menos caras conforme a disponibilidade financeira, dá-se o beijinho da ordem e o “gajo” vai para o sofá enquanto a “gaja” lá fica a arrumar a cozinha como nos outros 364 dias do ano. É tão fácil dizer que amamos… basta ter uns trocos no bolso e ir ao Centro Comercial que lá o amor vende-se em pequenos pacotes muito bem enfeitados com um laçarote e uma etiqueta em forma de coração! No Ale...

Sir Arthur Conan Doyle

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  Derivado ao briolo que se faz semtir lá fora que nos convida para uma noite repousante à lareira e à falta de um filme de pancadaria na televisão, dei por mim a pensar que livros remetem para uma noite passada à frente do fogo? Dois autores vieram-me de imediato à mente, Jules Verne e Sir Arthur Conan Doyle. Como o primeiro demora sempre um pouco até ocorrer uma tempestade que nos faça apreciar o calor que estamos a gozar, optei por Doyle e o seu inigualável Sherlock Holmes que em duas oadinas. Se não menos, nos coloca nas ruas húmidas e nevoentas de uma Londres vitoriana de caleches e tipoias que nos obrigam a viajar enrolados em mantas de viagem e a tomar grogues quentes. Como os pensamentos e conversas são como as cerejas, vermelhos e com caroço, veio-me à memória uma história absolutamente verídica que se passou com o autor numa das suas deslocações a este cantinho à beira mar plantado e da qual muito gosto. Em primeiro lugar porque nunca aconteceu e em segundo lugar porque n...