Puto
Na sala, envolvida numa penumbra quase escuridão, pessoas escuras, vestidas de escuro, velavam em vida o corpo que repousava no sofá. As palavras, quando as diziam, eram sussurradas como se tivessem receio que uma nota mais alta tivesse o condão de acelerar a doença. “Estás bem?”, “Queres mais uma almofadinha?”. E o cansaço espelhado naqueles olhos de quem sabe e ao mesmo tempo recusa a verdade. “Agora vou só fechar os olhos um bocadinho” Fecha sim, fecha os olhos. Retira-te para um sítio onde não haja pessoas escuras, vestidas de escuro a velarem-te quando ainda respiras. Retira-te para um sítio com sol. Olha, para o Malhão onde costumávamos ir à pesca…. onde costumávamos ir à pesca… mentira! Fui contigo à pesca quatro ou cinco vezes porque ainda havia muito tempo. Mentira, não havia. “Eu sei que vou morrer!”, dizes com uma calma e uma certeza que desarma e destroi. Não há força para te contradizer E eu sem nada sentir, ou pelo menos sentir com a grandeza que a situação ex...