Dos 100 ao zero
Dos cem ao zero O barco das 8:00 é um Mundo, um microcosmo de vida. A minha frente segue um quarentão com uma revista que ensina os homens da barba rija que os automóveis têm imensos cavalos lá dentro e que a gasolina tem octanas e outras coisas bastante importantes para quem pretende cadar um automóvel para o resto da vida. Auto Motor, pareceu-me ler na capa. Lá dentro uma série de latas com rodas perfilava-se em poses mais ou menos sensuais, de frente, de trás, de lado e alguns até de portas abertas de par em par deixando ver de forma explicita o seu interior almofadado. 5,7 segundos dos zero aos cem, lia-se. Na fila do lado, uma moça vem catrapiscando um rapaz há vários meses, primeiro no barco e depois no metro, todos os dias. Guarda-lhe lugar ao lado do seu e já toda a gente respeita aquele lugar que sabe ser só dele. Só ele, tolinho, parece não ver. Apetece-me agarrá-lo pelos colarinhos e sacudi-lo à bruta para o despertar para aqueles olhos cor de mel que aguardam por ele....