A rapaziada
Sentado nas costas do banco de jardim que ficava por baixo da Sperm Tree, árvore que acolhia a malta por aqueles tempos e que recebera aquele distinto apelido pelo característico aroma que libertava, solto uns últimos acordes da harmónica antes de a guardar no bolso do blusão de ganga coçada. “Toca mais, toca mais”, pede o Mota. Ninguém sabe como é que o Mota passou a fazer parte do nosso grupo de amigos, subia todos os dias de uma Moscavide cinzenta e de céus estreitos onde morava, para passar um pouco do seu tempo naqueles Olivais de amplos céus azuis e verdes relvados a perder de vista. Não sei porque me pediu para continuar a tocar, a única coisa que eu conseguia fazer era arrancar uns acordes tristes daquele instrumento que davam expressão ao que me corria na alma por aqueles meus 20 anos de juventude perdida. Faltava-me algo, já naquela altura sentia que me faltava um bocado de mim, sempre faltara, e, nos momentos de maior solidão ou introspecção como lhe queiram cham...