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A mostrar mensagens de março, 2026

A rapaziada

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  Sentado nas costas do banco de jardim que ficava por baixo da Sperm Tree, árvore que acolhia a malta por aqueles tempos e que recebera aquele distinto apelido pelo característico aroma que libertava, solto uns últimos acordes da harmónica antes de a guardar no bolso do blusão de ganga coçada. “Toca mais, toca mais”, pede o Mota.  Ninguém sabe como é que o Mota passou a fazer parte do nosso grupo de amigos, subia todos os dias de uma Moscavide cinzenta e de céus estreitos onde morava, para passar um pouco do seu tempo naqueles Olivais de amplos céus azuis e verdes relvados a perder de vista. Não sei porque me pediu para continuar a tocar, a única coisa que eu conseguia fazer era arrancar uns acordes tristes daquele instrumento que davam expressão ao que me corria na alma por aqueles meus 20 anos de juventude perdida. Faltava-me algo, já naquela altura sentia que me faltava um bocado de mim, sempre faltara, e, nos momentos de maior solidão ou introspecção como lhe queiram cham...

Estações de Metro e da vida

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  Os olhos divagam, perdidos, por outros olhos perdidos que vêem muito para além da carruagem do metro apinhada de gente. Vêem para o mundo que cada um tem dentro de si, para o que aconteceu no trabalho e para o que acontecerá mais tarde em casa. Fazem-se contas ao dinheiro que não chega, aos filhos que acordaram adoentados e para o resultado dos exames médicos que se fizeram na semana passada… se ao menos a dura realidade não passasse de um sonho que desaparecesse com um simples abanar de cabeça ao chegar à estação. Bela Vista! Dois olhares que se cruzam, passam um pelo outro e subitamente votam atrás como se uma memória longínqua os tivesse arrancado ao torpor do quotidiano e os lançasse numa viagem ao passado. Olhos que se prendem noutros olhos que há muitos, muitos anos se perderam um no outro. Boa sorte! Duas palavras e dois beijos na cara foram o seu presente de despedida naquela tarde quente do mês de Junho. Um seguia em frente nos estudos para tentar ser qualquer coisa na v...

Dia do Pai

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  Pai, tenho saudades.  Sabes que eu nunca gostei de pirolitos, nem de qualquer outra bebida com gás, mas eu queria tanto o olho de boi que estava dentro daquela garrafa… Hoje é me impossível olhar para uma garrafa de pirolito sem me lembrar de ti e daquela pioneira das roulottes que se encaixava num passeio à saída de Moscavide onde me compravas um pirolito e uma fartura. A fartura descia, o pirolito é que não. O gás subia-me ao nariz e dava-me vontade de espirrar. Mas eu gostava tanto daquele olho de boi…  Já não é Verão, e ao fim da tarde já sopra aquela frescura que nos arrepia os braços logo abaixo da manga da t shirt e nós sentados naquelas cadeiras de ferro, eu com o gás do pirulito a subir-me ao nariz e tu de volta com a tua cervejinha, loira, com borbulhinhas de frescura a subir dentro do copo que levavas à boca delicadamente levantando o dedo mindinho  O dono da roulotte, de bigode à Errol Flinn, passa o pano no alumínio do balcão e fala com dois clientes q...

A uma amiga perdida

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  Deitada na cama, de olhos esgazeados, Silvia olha o tecto branco do quarto. Aquele mesmo tecto que viu tantas outras noites, umas vezes de sorriso nos lábios, outras de lágrimas nos olhos e hoje de uma forma diferente, despegada e talvez um pouco triste.  Quando era pequena e corria descalça pela relva com a saia plissada branca e vermelha esvoaçando atrás de si, este dia parecia-lhe muito longe, inatingível até. Também, aos 10 anos quem pensa neste dia? Aos dez anos… tem agora cinquenta e sete, e pelo caminho foi perdendo os sonhos e as gargalhadas, as corridas pela relva foram substituidas pela corrida para o autocarro e os dias carregados de verde e azul celeste, por um lugar obscuro num Ministério cinzento. Cinquenta e sete de vida e quase quarenta perdidos. Sente uma lágrima começar a formar-se no canto do olho direito e depois de bem cheia, começar a descer silenciosa pelo rosto em direcção ao ouvido. É quente e sabe-a salgada, tantas vezes as saboreou. O tecto parece-...