O Vitor Coxo


 Nos meus tempos de miúdo fazia parte do meu grupo de professores informais um rapaz, talvez uns 7 anos mais velho do que eu, a que nós carinhosamente e principalmente quando estávamos bem longe dele, chamávamos de Vitor Coxo por mor de uma bota ortopédica que calçava para de corrigir a diferença de mais ou menos dez centímetros de uma perna para a outra. Tinha sido a poliomielite, dizia-se.

Vitor Coxo, utilizava com frequência aquele corrector ortopédico para nos ensinar as lições mais básicas da vida, como o respeito aos mais velhos, principalmente a ele, a visão periférica e a arte da esquiva. 

Repetia ele com uma sabedoria chinesa quando alguém a mais de cinco metros de distância lhe faltava ao respeito, que não precisava de correr atrás dele. E era verdade, Vitor Coxo não esquecia. Nos primeiros dias, bem ciente do perigo que corria, o prevaricador não se aproximava à distância de uma pedrada, depois, à medida que os dias se sobrepunham a outros dias, lá ia ganhando coragem e começava a rondar o grupo mantendo, todavia, uma distância segura entre ele e a temível bota. O Vitor parecia nem dar por ele, até que um dia, um ou dois meses passados do agravo, a vítima adormecida por aquela aparente indiferença, cometia o erro de reduzir a distância de segurança. Erro crasso! Com um salto olímpico, balanceado pela bota ortopédica, Vitor o Vingador, transpunha pelo ar os cinco metros que o separavam da vitima e a última coisa que ela via na sua vida era uma bota ortopédica que o atingia numa perna com a velocidade e a potência de um soco do Cassius Clay.

Com a vítima indefesa e sem possibilidade de fuga, o Vitor fazia-lhe ver por A mais B que tinha sido incorrecto com ele e a verdade é que a explicação era tão boa que o rapazola durante muito tempo não encontrava o mínimo incentivo de lhe faltar ao respeito, fosse ele chamar-lhe Coxo ou simplesmente marcar um golo na sua baliza.

Não admirava portanto que, quando eram escolhidas as equipas para jogar futebol todos quisessem ficar na sua equipa apesar de o irmão dele, da equipa contrária, ser incomparavelmente o melhor jogador que alguma vez vi dentro de campo, incluindo o Cristiano Ronaldo

Sendo a nossa diferença de idades tão notória não tive muitas oportunidades de interagir com ele, mas lembro-me de uma ocasião, teria eu talvez uns doze anos ou menos, de ele, do nada vir sentar-se na relva ao pé de mim e da Cristina, uma garota mais ou menos da minha idade e de quem eu tinha a pretensão de gostar (sentimento nunca correspondido felizmente para ela), e encetar uma reflexão filosófica sobre o naturalismo e a sua relação com a Natureza que eu muito apreciei. Disse ele, visando sub-repticiamente a minha parceira, que não havia qualquer razão para os seres do sexo feminino não exibirem o seu corpo, pois qualquer que fosse a parte que expusessem, seria apenas um pedaço de carne como outro qualquer e deu como exemplo a sua própria falange.

Apesar da minha idade, fiquei extasiado com aquela nova perspectiva de vida e comunhão com o mundo que nos rodeava. E decidido a põr rapidamente em prática aquele ensinamento, vesti-me com o meu ar mais inocente e repliquei com um “Boa ideia, podemos começar com a tua irmã!”.

Já vos contei que o Vitor tinha um soco muito forte? Pois bem, tinha!

E tanto que o tinha que o conservou por muitos e bons anos e, já adultos, quando nos encontrávamos no patamar do prédio, ainda me dava um soco no braço à altura do ombro que me paralisava o braço por umas boas duas horas.

Noutra ocasião, seria eu ainda mais pequeno, envolvi-lhe numa bulha com um amigo meu, naquelas refregas que consistiam em rolar no chão para ver quem ficava por cima e onde ninguém, a não ser o orgulho, saia magoado. Umas vezes ficava eu, noutras o meu oponente, a diferença é que cada vez que eu conseguia dominá-lo, os seus amigos, que eram dois, faziam-me rolar de novo para baixo dele numa luta desigual que eu estava, à partida, condenado a não vencer.

Ao longe, o Vitor assistia um jogo de futebol entre a rapaziada que decorria num dos relvados completamente indiferente à minha tentativa de sobreviver aquela luta desigual.

Por fim, cansados da luta e por verem que não desistia, os meus adversários momentâneos, que no dia seguinte já seriam meus amigos outra vez, e são-no e serão sempre, deixaram-me finalmente em paz e, com os joelhos manchados de relva e uma raiva mal contida dentro de mim, levantei-me do chão e dirigi-me até ao local onde o Vitor continuava impávido a ver o jogo.

Não me queixei. Fiquei apenas a ver o jogo a seu lado.

Sem olhar para mim e como se se dirigisse com alguém invisível à sua frente disse simplesmente “ Portaste-te bem! Eram três contra ti e não choraste”.

Não, na altura não chorei nem nunca mais chorei na minha vida.

Naquele dia o Vitor ensinou-me a sobreviver, sempre!


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Eleições Presidenciais 2015, uma análise ao perfil dos candidatos (quando ainda me dava ao trabalho)

O Açordas

Faz hoje 40 anos