Ó tágide minha


 Uma garota dos seus vinte cinco ou vinte seis anos, alta e coroada por um boné de pala castanho, que deixava cair os seus cabelos negros penteados em rabo de cavalo pela abertura traseira, viajava no Metro alheia ao que se passava à sua volta cantarolando silenciosamente o que os headphones over hear, pretos, lhe sussurravam aos ouvidos. 

A camisa de alças cinzenta e justa ao corpo mostrava um corpo fino de cintura de vespa. Um palmo abaixo desta cintura de vespa, umas calças do que me parecia um veludo castanho ajustavam-se-lhe às pernas até à altura do joelho e dai para baixo alargavam até aos ténis também eles cinzentos.

Tudo isto para dizer que lhe olhei para o rabo. É verdade, olhei-lhe para o rabo! E que rabo, meu Deus. Sim, eu sei que não se deve evocar o nome de Deus em vão mas, neste caso, até ele deve estar orgulhoso da sua obra e certamente ficará muito satisfeito por eu lhe dar aqui os devidos créditos pela criação que certamente só a ele terá cabido. 

Há muitos anos que não via um rabo assim, nem mesmo o daquela brasileira que frequenta a mesma praia que eu e tem um rabo que é perfeitamente aproveitável para levar entre as nádegas a minha garrafa de Coca Cola de 33 cl para a refrescar quando mergulha nas águas geladas da Figueirinha.

O rabo desta garota não era grande. Era simplesmente bem feito e tão perfeito que, ao pé dele, o  Taj Mahal não passava de uma mal enjorcada barraca do Bairro do Talude sobre o qual eu passaria um buldozer sem perder sequer um minuto do meu sono e o mundo não ficaria pior por isso.

Admiravelmente, por um qualquer fenómeno raríssimo para não dizer único, que apenas posso explicar como sendo um milagre, nenhum cu gordo de leggings apertadas e cuecas de balão se intrometeu entre a moça e os meus olhos quando começámos subir as escadas do metro. Primeiro em direcção aos torniquetes, onde a perdi por segundos de vista, e depois nas escadas rolantes em direcção à superfície. As suas calças, embora justas e as cuecas que não se adivinhavam em nenhum lado, permitiam-lhe um leve agitar dos glúteos a cada passada, digamos um 3.2 na escala de Richter, que é o suficiente para sentirmos que estamos perante um fenómeno da Natureza mas não chega ao extremo de nos fazer entrar em pânico.

Não hesito, um rabo daqueles devia ser condecorado pela Presidência da República com a medalha da Ordem de Camões por serviços relevantes prestados à língua portuguesa, pois naqueles breves segundos em que os nossos caminhos se cruzaram, ou melhor seguiam rectas coincidentes em termos de direcção e sentido, proferi mais adjectivos superlativos do que em 12 anos de escolaridade obrigatória e mais uns quantos a passear na Faculdade. Admirável. Até o próprio Camões se fosse vivo mandaria às urtigas as Tágides e dedicaria os dez cantos dos Lusíadas e mais um apendice para as estrofes que se fosse lembrando pelo caminho da gráfica, àquele rabo.

Mas que digo eu? Uma condecoração? Não, de todo! Uma condecoração seria insuficiente devia ser instituído, não direi o Dia Internacional para não me chamarem exagerado, mas, no mínimo, o Dia Nacional do rabo da Raquel, chamemos-lhe assim, com direito a feriado nacional e discurso na varânda da Câmara Municipal de Lisboa. 

Mais tarde e já a título póstumo para referência às próximas gerações, seria erigida uma estátua em tamanho real ou preferencialmente à escala de 1:10 numa praça gigantesca e à sua volta, quem sabe, um santuário tipo Fátima, mas em grande, com capacidade para receber peregrinos de todo o mundo.

Teria salas de multimédia a exibir em permanência curtas metragens com a Raquel a saltar à corda, a correr para a água numa praia ou a fazer alongamentos da coluna. Pequenas lojas venderiam lembranças em forma de rabo para servir de cabide guarda-chuva, tira cápsulas de garrafas e assim.

Infelizmente, uns passos depois da escada, perdi de vista a Raquel que se dirigiu a trote ligeiro para um daqueles barcos muito velhos que fazem ligação a Almada e terras contíguas e certamente nunca mais terei oportunidade de a ver

Fica a história e a memória


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