O Açordas

 


Por vezes gosto de pensar em mim
Como um fiel depositário de recordações,
Pedaços de vida que alguém deixou a congelar
Na criogenia da minha memória.
Hoje, sem saber porquê, recordei o Açordas
Demorei algum tempo até conseguir recordar o seu nome verdadeiro.
Alberto, chamava-se Alberto!
Mas para nós era, desde sempre. o Açordas.
Puto beirão, rijo e de cara sardenta
o seu destino seria traçado logo de criança pequena.
Sem posses para sustentar mais um filho,
os pais, lá de uma pequena aldeia da Beira Interior,
o entregam à criação de uns tios de Lisboa. 
Nunca o vimos lamentar-se de nada.
Um homem é como tem de ser!
Puto rijo cerrava os dentes e metia sempre o pé à bola.
Porque um homem tem de ser rijo
e não pode virar as costas a nada.
Um homem não chora.
Resistia a tudo o Açordas.
Resistia a tudo,
menos à corrente de um rio da sua terra
que um dia, tendo-o de visita, 
o arrastou nas suas águas para um lugar
onde as pessoas já não precisam de dar o corpo
às bolas chutadas com força
Tinha 9 anos o Açordas.
Um homem tem de ser rijo e não chora.
Eu sou homem, Açordas
e desculpa lá se hoje chorei um pouco por ti,
que eras um homem rijo.

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