Dia do Pai


 Pai, tenho saudades. 

Sabes que eu nunca gostei de pirolitos, nem de qualquer outra bebida com gás, mas eu queria tanto o olho de boi que estava dentro daquela garrafa…

Hoje é me impossível olhar para uma garrafa de pirolito sem me lembrar de ti e daquela pioneira das roulottes que se encaixava num passeio à saída de Moscavide onde me compravas um pirolito e uma fartura. A fartura descia, o pirolito é que não. O gás subia-me ao nariz e dava-me vontade de espirrar. Mas eu gostava tanto daquele olho de boi… 

O Verão já terminou,

 e ao fim da tarde já sopra aquela frescura que nos arrepia os braços logo abaixo da manga da t shirt e nós sentados naquelas cadeiras de ferro, eu com o gás do pirolito a subir-me ao nariz e tu de volta com a tua cervejinha, loira, com borbulhinhas de frescura a subir dentro do copo que levavas à boca delicadamente levantando o dedo mindinho

 O dono da roulotte, de bigode à Errol Flinn, passa o pano no alumínio do balcão e fala com dois clientes que tremoceiam entre dois finos casqueando as sobras para o chão enchendo-o de moedas doiradas que uma a uma vão cobrindo as beatas pisadas. Mais um golo no pirolito e o olho de boi a chocalhar no gargalo.

Pai, mon père! Quantos anos já passaram? Cinquenta?  Cinquenta e dois? Uma infinidade deles?

No outro dia passei por lá e à saída de Moscavide já não existe a roulotte, já não existe o Errol Flinn, nem os pirolitos, nem tu, nem o puto que bebia pirolitos. Existe só o gás que ainda me sobe ao nariz e me faz vir lágrimas aos olhos.

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