Os Viscondes e os dez milhőes de tolinhos

(Publicado originalmente em 6 de março de 2022)

Num país enclavinhado entre as brancas montanhas onde corria descalça uma menina de saias vermelhas atrás das cabras do avô e as densas florestas onde um veado chamado Bambi afiava as hastes, vivia um Visconde que estava a passar um mau bocado da sua vida acumulando dívidas atrás de dívidas ao ponto de estar em risco de perder a casa. 

O Visconde já não sabia o que fazer na vida, tudo lhe corria mal. Perdia título atrás de título ao ponto de se tornar a chacota das outras famílias reais. Começara como Rei, passara a Regente, depois a Príncipe imperial, a Príncipe real, a Grão-príncipe, a Príncipe, a Arquiduque, a Grão-duque, a Duque, a Marquês (e que saudades ele tinha do Marquês), a Conde, a Conde-barão e agora era um mero Visconde e se as coisas não lhe começassem a correr de feição muito em breve passaria a um mero Conde.

Estava ele a refrescar os pés descalços numa ribeira que por ali corria quando deu com um velhinho que o observava sentado numa pedra.- - Está aí há muito tempo?, perguntou.

- Alô,  disse ele acenando ao velhote que pareceu despertar de um longo sono. 

- Uiiii, respondeu o velhote, há quase um Millenium.

- Há quase um milénio? Chiça! Então deve ser muito velho!

- Pode-se dizer que sim, - respondeu o ancião, - já nascer e morrer muita gente:  D. Afonso Henriques, Gengis Khan, Carlos Magno, Cleópatra, Jesus, Maria, José…

- Jesus? Jesus, deves ser mesmo velho.

O velhote acenou com a cabeça como se tivesse a reviver o passado 

- Mais velho do que eu só o Espirito Santo.

- O Espirito Santo? Mas esse não é apenas uma metáfora?

- Uma metáfora? Olha lá ó espirito Santo – gritou ele para a floresta – Este gajo está a dizer que és uma metáfora.

De trás de uma árvore apareceu outro ancião, se possível ainda mais velho que o primeiro, a apertar a braguilha da túnica.

- Está a dizer o quê?

- Que és uma metáfora.

- Metáfora os tomates, - resmungou o velhote, - vem uma pessoa para aqui ajudar um borrabotas e ainda é ofendido. Se não fosse o Sobrinho eu bem lhe dizia.

- Sobrinho? – perguntou o visconde – Sobrinho de quem?

- Nada, esquece, - atalhou o primeiro velhote – olha lá, não estás à resca de dinheiro?

- Bom eu….

- Caga nisso, estamos aqui para te ajudar. – continuou o primeiro velhote.

- A sério? Como ?

- Olha lá, não tens uma casa? – avançou o segundo velho.

- Sim, tenho. Mas está um bocado maltratada, sabe, não tem havido dinheiro para reparações… os títulos fogem-me….

- Esquece lá isso, quanto é que vale o teu castelo?

- Bom, assim de repente, não sei bem. A Remax há uns anos disse que valia 100 milhões, mas agora não sei, com tantas telhas partidas e com a humidade nos tectos…

- Esquece, - voltou à carga o primeiro velhote – Nós damos-te 200 milhões por ela.

- Duzentos milhões? Mas a Remax disse que…

- Esquece o que disse a Remax e ouve o que te digo. Entregas a tua casa de 100 milhões como hipoteca e nós emprestamos-te 200 milhões para te fazeres à vida.

O visconde coçou a cabeça, 

- Duzentos milhões ajudavam um bocado… mas, se é um empréstimo tenho de pagar juros correcto?

O velho Espirito Santo avançou um passo.

- Claro que sim, nós não somos a Santacasa, mas ouve, fazemos assim: Só pagas quando tiveres lucro. No fim do ano ano vamos à tua conta bancária e se tiveres lá dinheiro pagas juros.

- E quando não?

- E quando não, - disse o primeiro velhote – ….não pagas!

O visconde pestanejou. Então mas… então mas, se por exemplo eu durante o ano tiver tido lucro e antes de fechar as contas comprar dois automóveis , um pião e um fogão a gás e ficar sem dinheiro.

- Então… não pagas! – disseram em coro o velho milenar e o Espirito Santo.

Ao visconde parecia um negócio demasiado bom para ser verdade e cauteloso perguntou ainda.

- E o reembolso?

- O reembolso? – perguntaram outra vez em coro os dois velhotes.

- Sim, mais cedo ou mais tarde terei de pagar o que me emprestaram, certo?

- Sim, certo – disse o Espirito Santo.

- Então e se eu não tiver dinheiro para pagar o empréstimo?

O velho milenar levantou-se da pedra e começou a andar de um lado para o outro a cofiar as barbas com um ar muito sério.

- Bom se não tiveres como pagar… se não tiveres como pagar. Bom, isso é um caso muito sério e não podemos ficar com um prejuízo desse tamanho, não achas?

- Pois…

- Bom, nesse caso vendemos-te a tua dívida com 70% de desconto, ou seja dos 200 milhões que te emprestámos, pagas apenas 60 milhões.

- E ainda fico com o Castelo

- E ainda ficas com o Castelo!

- Parece-me bem! Onde é que assino? 

O velhote número dois tirou um contrato debaixo da túnica e deu-o ao visconde para assinar.

- Obrigadinho - , diz ele. Tapando a caneta de pois de rabiscar o seu nome no fundo da folha onde já tinha assinado o sobrinho e outros.

- Mas olhem lá, há uma coisa que me está a fazer confusão. Vocês emprestam-me 200 milhões, eu só pago 60 milhões…. quem paga os outros 140 milhões.

Os velhotes que já se iam embora voltaram-se para ele.

- Olha lá, leste o título da história? Estamos aqui nós e o Visconde. Adivinha em que parte entram os 10 milhões de tolinhos?

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