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Bond, James Bond

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Já passaram por aquela situação de se sentirem no mínimo irresistíveis? É natural que não porque são pessoas normais. Até eu, que sempre estranhei o facto de não ter todas as mulheres do mundo e planetas adjacentes a cair-me aos pés - naturalmente por não conseguirem transpor para palavras e acções a imensidão da minha beleza e inteligência - nunca tinha passado por isso... até sexta feira passada. Tudo começou à entrada do barco, quando uma trintona, que nunca tinha visto mais gorda, me brindou com um sorriso que parecia conter três circos chen dentro dele. Aquele sorriso de filme, que todos sonhamos ser alvo pelo menos uma vez na vida. Aconteceu-me a mim naquele terminal marítimo que agora sempre me parecerá escuro e sem graça.  Já no barco, uma moça que ia a entrar foi detida por um apertão no braço da amiga que, com um movimento subtil do queixo, apontou para mim.  Não posso garantir mas acho sinceramente que disseram: Que giro! - e dois sorrisos escorreram-lhes dos lábios...

Expectativas

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  Estava aqui a olhar para a minha gata e a pensar... Desde que nascemos somos alvo da expectativa de alguém. Desde que nascemos disse eu? Não, a expectativa começa muito antes com a célebre frase "...desde que seja perfeitinho..." e lá nasce um gajo a arremelgar os olhos para todos os lados para ver de descobre na cara dos pais e avós babados sinal de que é perfeitinho e não desilude ninguém. Depois de sossegarmos  os nossos familiares mais próximos quanto à nossa perfeição, começa a nossa verdadeira guerra,  são os pais que esperam que sejamos uns bons filhos, os professores que esperam que sejamos um bom aluno, os amigos que esperam que sejamos bons amigos e dêmos muitos likes nas suas fotos,  o patrão que espera que sejamos bons trabalhadores, o estado que espera que sejamos bons cidadãos, as mulheres que esperam que sejamos bons maridos, os filhos que esperam que sejamos bons país, o estado, outra vez, que espera que morramos cedo e finalmente  Deus que esp...

Uma questão de fermento

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  Faço actualmente parte de um grupo no Facebook que quer recuperar os saberes ancestrais do fabrico artesanal de pão, desvendando os segredos da fermentação natural, que permite recriar produtos com sabores complexos e texturas únicas que a produção industrializada fez há muito esquecer. Comecei assim na passada segunda-feira a min ha jornada de tentar produzir o meu próprio levedante, utilizando produtos tão à mão de semear como um frasco de vidro, farinha integral, água e outro um pouco que é mais difícil de encontrar: paciência. A fim de criarmos uma maior empatia e sentido de responsabilidade sobre aquele elemento vivo que nos propusemos a criar, o nosso orientador aconselhou-nos a baptizar os bichinhos que começavam a borbulhar naquela maternidade de vidro. Imediatamente começaram a surgir os mais variados nomes na sua maioria propostos pelas senhoras do grupo e assim nasceram Zés, Fermentinhos, Albertos, Óscares, Mixus, Patinhos, Borbulhinas, Mentinhos, etc, etc, etc. Assent...

Prenda de aniversário

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  Passada que está uma semana (quase) sobre o meu aniversário, é chegada a hora de reflectir e fazer as contas sobre esta efeméride tão importante como a passagem do cometa Halley. Feitas então as contas recebi 2 (duas) prendas: Uma da minha cunhada, que, reconhecendo a minha personalidade afável, simpática e encantadora, me ofereceu uma flor, um cacto mais precisamente, cheínho de picos por todo o lado. A outra prenda, embora atrasada, foi de quem eu menos esperava, do MAI. Uma missiva trés charmant , repleta de fotografias do nosso ultimo encontro na Estrada Nacional 252 e onde me intimava a pagar uma multa no valor de 60 euros por seguir naquela via à estonteante velocidade de 67km/hora num local onde apenas se pode circular a 50km/hora sob pena de poder causar danos irreversíveis a uma qualquer agulha de pinheiro manso que tenha o azar de ir a atravessar a estrada quando eu fosse a acelerar como um doido por ali fora.  A paisagem do local em questão e que tantos cuidados m...

Tons de tons

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  A confirmar-se o que comummente se diz e que muito orgulha o ser feminino que está sempre a tentar-se encontrar qualquer pretexto para superiorizar ao sexo masculino, as mulheres têm uma maior capacidade para distinguir tonalidades de cor que o homem. Enquanto para o homem existe o cor-de-rosa, o vermelho, o azul e o verde (exepção feita àquela cor maravilhosa que todos os homens de extremo bom gosto conseguem distinguir perfeitamente e que é o vermelho Benfica), para as mulheres existe o rosa pálido, o rosa bebé, o rosa forte, o fushia, o vermelho tomate, o vermelho cereja, o vermelho sangue, o vermelho vermelho, o carmim, o grená, o azul bebé, o azul topázio, o azul céu, o azul escuro, o azul esverdeado, o verde azulado, o verde maçã, o verde pistácio, o verde relva, o verde folha, o verde pinheiro… Esta grande variedade de tonalidades que só as mulheres com a sua subtileza visual conseguem distinguir, leva a constantes conflitos com a sua cara metade na hora de pintar a casa, ...

O Sr Santana

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 Por vezes gosto de me considerar um guardador de memórias, até porque me faz acreditar que sirvo para alguma coisa.  Hoje, remexendo no meu velho baú de memórias, encontrei o Sr. Santana, cobrador reformado na empresa onde ainda vou fingindo que trabalho.  O caro Santana, homem de modos rudes, largo de compleição e nariz fibroso adorava a sua pinga, naturalmente quando digo pinga refiro-me a um barrilzinho de aguardente, sobre a qual ele dizia "Carlos, tenho de lhe trazer uma garrafinha de aguardente lá da terra. Com um bocadinho de açúcar amarelo lá dentro, ao fim dum mês parece uisc!" e depois contava a rir "quando vou com a família à terra, para cima vai tudo comigo no carro, à vinda para baixo vêem de comboio e eu trago o carro".  A cirrose levou-o há muitos anos e a garrafa de aguardente que me trouxe continua por abrir na minha garrafeira, mas tenho a certeza que se um dia a vier a abrir se saberá melhor que o melhor Oban.

Bucareste 30º à sombra

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 Uma das razões que gostava de viajar com o Mourato é que não havia conversas de ir ao pacote. Mas alto é pára o baile. É preciso não confundir conversas de ir ao pacote com conversas parvas em que, felizmente, eramos pródigos. Tanto podíamos andar quilómetros a discutir a diferença entre uma Spur Cola e uma Coca-Cola ou a inventar uma letra estúpida para uma canção com que presenteássemos o Jacinto quando chegássemos à Ericeira, como podíamos estar horas em silêncio sem trocar uma palavra. Nunca havia aquela urgência em dizer qualquer coisa só para fazer conversa. As palavras surgiam quando tinham de ser ditas e os silêncios prolongados nunca eram embaraçosos. Ao contrário daquelas pessoas que estão almoçar e depois de uns segundos de silêncio se sentem no dever de falar do calor ou do frio que fez ou que vai fazer, dizíamos que tínhamos a dizer e nunca nos sentimos obrigados a mais,  Isto veio-me a propósito da mania que apanharam na Antena 1 quando anunciam o tempo para hoj...