A uma amiga perdida

 


Deitada na cama, de olhos esgazeados, Silvia olha o tecto branco do quarto. Aquele mesmo tecto que viu tantas outras noites, umas vezes de sorriso nos lábios, outras de lágrimas nos olhos e hoje de uma forma diferente, despegada e talvez um pouco triste. 

Quando era pequena e corria descalça pela relva com a saia plissada branca e vermelha esvoaçando atrás de si, este dia parecia-lhe muito longe, inatingível até. Também, aos 10 anos quem pensa neste dia?

Aos dez anos… tem agora cinquenta e sete, e pelo caminho foi perdendo os sonhos e as gargalhadas, as corridas pela relva foram substituidas pela corrida para o autocarro e os dias carregados de verde e azul celeste, por um lugar obscuro num Ministério cinzento. Cinquenta e sete de vida e quase quarenta perdidos.

Sente uma lágrima começar a formar-se no canto do olho direito e depois de bem cheia, começar a descer silenciosa pelo rosto em direcção ao ouvido. É quente e sabe-a salgada, tantas vezes as saboreou.

O tecto parece-lhe agora mais branco, como um lençol a envolvê-la.

Silvia, Silvia, arranca os olhos aos gatos, ouve os outros miudos a cantarolar a lengalenga e cirandando-a aos saltos. E ela, carinhosamente abraçada àqueles seres frágeis e peludos, faz ouvidos moucos e não lhes liga, ou liga só um pouquinho quando vai para casa e fica sozinha no quarto, noutro quarto também ele de tecto branco. Silvia, Silvia, arranca os olhos aos gatos.

Consegue esboçar meio sorriso, ou pelo menos acha que esboça meio sorriso porque o seu rosto continua imóvel e salpiscado de sardas. Eles nunca souberam… eles nunca souberam o quanto ela gostava daqueles gatos

Desejou voltar a ser pequena e sentir o rosto abrasado pelo sol nas suas correrias a pés nus até se deixar cair de barriga para cima olhando as nuvens que corriam no céu azul.

Sempre sonhou ver o firmamento, mas só lhe tinham dado a ver o tecto branco daquele quarto. Novamente um sorriso imaginário e triste desenhou-se-lhe nos lábios. Como os sonhos de criança se podem perder assim.

Triste amor, triste dor.

Dos primeiros beijos debaixo dos pinheiros naquele principio de Verão, entre risos e espigas doiradas a entranharem-se-lhe nos soquetes aos últimos beijos num dia frio final de Inverno, entre lágrimas e farpas agudas a enterrarem-se-lhe no peito parece ter passado apenas um segundo, daí para a frente a vida arrastou-se.

Deus, Deus, meu Pai...não merecia. Tão só, ali tão só. Ao menos alguém…. o filho, ou aquele que, lá no fundo, ainda considera seu marido.

Outra lágrima mais grossa que a primeira, corre quente seguindo o caminho aberto pela anterior.

Naquele dia, nos pinheiros, tinham-lhe dito que os seus dentes pareciam pérolas, ou pelo menos alguém tinha pensado que eles pareciam pérolas, pequeninas, brilhantes. Naquele dia já distante pareceu uma frase insignificante, hoje, naquele momento, aquelas palavras valem-lhe tanto.

Pérolas pequeninas…brilhantes, misturadas com um riso de cristal sarapintado de sardas.

Já não ri, já não corre descalça.

Silvia, Silvia, arranca os olhos aos gatos.

O tecto começa a escurecer, a perder a forma, cinzento, negro.

Silvia, Silv...

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