De cabeça perdida


 Aos domingos pela manhã e enquanto não posso por a televisão aos tiros para cá e para lá por causa do barulho, costumo passar pelas notícias da CMTV. Em primeiro lugar porque há uma locutora giríssima e em segundo lugar por que me dá prazer ouvir a retórica dos repórteres de província a fingirem-se eloquentes e armados de uma expressão assarapantada a repetir a mesma história durante 10 minutos para ver se ocupam tempo de canal. Mesmo que a notícia seja pequenina e se possa transmitir com fidelidade em duas frases, eles teimam em ocupar 12 minutos do seu tempo de antena e da nossa paciência para dizer que a D. Carlota atravessou a estrada fora da passadeira e foi colhida por uma bicicleta conduzida à mão por um amola tesouras que fugiu a sete pés deixando para trás três varetas de guarda chuva e uma flauta com que ele anunciava a sua presença.

Mas o que me leva hoje a escrever estas linhas não é a menina bonita nem  os repórteres assarapantados, mas uma notícia transmitida com toda a seriedade e que ainda hoje, passadas 24 horas ainda estou a digerir.

A história reporta-se ao ano de 2025 e a uma decapitação em plena via pública de um cidadão estrangeiro por outro cidadão estrangeiro que aparentemente sofre de esquizofrenia. 

Pois bem, relatava a notícia que o dito cidadão, depois de cortar a cabeça (ou corpo depende da perspectiva) do outro cidadão e como aquela não ficasse tão bem numa prateleira lá de casa como ele esperava, agarrou na dita, colocou-a num saco de plástico de alças e dirigiu-se ao Centro de Saúde da Alameda, em Lisboa, para proceder à sua entrega. Qual terá sido a sua surpresa, quando a funcionária do Centro lhe disse que aquilo não era nada com eles porque ali só davam vacinas e consultavam velhotes com mais de oitenta anos e miúdos aos berros pelo que se devia dirigir a um Hospital que lhe desse jeito. Muito contrariado com inesperada  burocracia, mas não querendo arranjar chatices pois já lhe bastava ter ficado com as escadas do prédio salpicadas de sangue quando o saco se rompeu e deixou cair a cabeça pelas escadas abaixo do terceiro andar até aos rés do chão, lá abalou ele para o Hospital de S. José que era o hospital da sua área de residência.

Lá chegado, tentou pela segunda vez fazer a entrega mas foi recebido por outra funcionária focinhuda que lhe perguntou se ele tinha ligado previamente para o SNS24, surpreendido mas incapaz de mentir porque sempre lhe tinham dito que mentir era feio, confessou que não, que não tinha ligado para o SNS24. 

Então nada feito, disse-lhe a funcionária, precisa de ligar para o SNS24 antes de vir cá. O esquizofrénico, que por sorte estava num dia bom se não era uma carga de trabalhos,  ainda tentou argumentar mas nada feito. Tinha que ligar para o SNS24 antes de vir.

Desanimado mas cumpridor dos seus deveres de cidadão, o senhor foi para casa, ligou para o SNS24, tirou uma senha electrónica através do telemóvel e pagou a taxa moderadora. Só assim, à terceira vez, é que conseguiu entregar a cabeça do ex amigo que, por aquela altura, também já estava muito incomodada de andar de um lado para o outro dentro de um saco a cheirar a morcelas. 

E assim a aventura conheceu finalmente o seu desfecho, ou seja, a cabeça nas mãos da polícia e o criminoso na cela ou no hospital psiquiátrico

Pode parecer incrível mas esta história, segundo a locutora, não é fruto da imaginação e aconteceu mesmo aqui em Portugal… bom tirando o cheiro a morcela do saco de plástico que fui eu que inventei.


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