A rapaziada

 


Sentado nas costas do banco de jardim que ficava por baixo da Sperm Tree, árvore que acolhia a malta por aqueles tempos e que recebera aquele distinto apelido pelo característico aroma que libertava, solto uns últimos acordes da harmónica antes de a guardar no bolso do blusão de ganga coçada.

“Toca mais, toca mais”, pede o Mota. 

Ninguém sabe como é que o Mota passou a fazer parte do nosso grupo de amigos, subia todos os dias de uma Moscavide cinzenta e de céus estreitos onde morava, para passar um pouco do seu tempo naqueles Olivais de amplos céus azuis e verdes relvados a perder de vista.

Não sei porque me pediu para continuar a tocar, a única coisa que eu conseguia fazer era arrancar uns acordes tristes daquele instrumento que davam expressão ao que me corria na alma por aqueles meus 20 anos de juventude perdida. Faltava-me algo, já naquela altura sentia que me faltava um bocado de mim, sempre faltara, e, nos momentos de maior solidão ou introspecção como lhe queiram chamar, perguntava-me como é que aquele vazio que sentia me conseguia preencher tanto.

Talvez o Mota reconhecesse naqueles sons tristes a própria dor que o afligia, não sei. “Faz-me sentir confortável”, explicou, metendo as mãos nos bolsos das calças e encolhendo o pescoço para dentro da gola do casaco como que a querer proteger-se das primeiras aragens frias de Outono.

Voltei a retirar a harmónica do bolso e levei-a aos lábios experientes em tocar dor e lágrimas. Como se consegue estar só no meio de tanta gente? A dor que resistia em sair-me por palavras libertava-se pelos sons da harmónica aliviando a pressão excessiva que se fazia sentir no meu peito, tal como o faz uma barragem quando o nível da água atinge a cota máxima.

Éramos um grupo de bons maus rapazes cada qual com a sua dor e as suas angústias disfarçadas por gargalhadas de juventude

Como podemos rir e disfarçar a angustia que nos corrói

Volto ao mesmo local 40 anos depois, o campo de jogos está despido de redes e os postes de basquetebol pintados de branco e preto há muito que não existem. As árvores, as velhas árvores que me embalaram ao som do restolhar das suas folhas nos dias quentes de verão, estão velhas e decadentes, umas foram arrancadas, outras estendem os seus braços nus ao céu. Faltam os risos da rapaziada. Olho esperançoso para as janelas à espera de ver aqueles rostos tão meus conhecidos, o Farsolas, os Crepes, o Paulinho, o Pepe, o Cascão, a Isabel, a Cristina, o Mourato, o Patão, a Silvia, a Ana, o Joca, o Alvarinho, o Bolinha, o Bispo, o Kikas, o Martinho, o Tenório a mancar vindo da Quinta do Morgado… nenhum, nenhum deles me acena, nenhum deles me diz que vem já ter comigo cá abaixo. Só o silêncio

Apetece-me soltar o assobio tão nosso e que percorreu imutável as duas gerações seguintes antes de se perder no esquecimento. Onde estão? Onde estão todos? Os meus olhos não os vêem mas o meu coração sente-os a todos cá dentro. Sinto-me velho, perdido, naquela terra que já não é minha mas que nunca me deixou partir.

Que faltam me fazem os risos da rapaziada.

Levo a mão ao bolso do blusão procurando por habito a harmónica e aos meus ouvidos regressa o som há muito perdido das palavras do Mota, “toca mais, toca mais”

Não sabia tocar mas confortava almas.

Que falta me fazem todos.


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