Estações de Metro e da vida
Os olhos divagam, perdidos, por outros olhos perdidos que vêem muito para além da carruagem do metro apinhada de gente. Vêem para o mundo que cada um tem dentro de si, para o que aconteceu no trabalho e para o que acontecerá mais tarde em casa. Fazem-se contas ao dinheiro que não chega, aos filhos que acordaram adoentados e para o resultado dos exames médicos que se fizeram na semana passada… se ao menos a dura realidade não passasse de um sonho que desaparecesse com um simples abanar de cabeça ao chegar à estação.
Bela Vista!
Dois olhares que se cruzam, passam um pelo outro e subitamente votam atrás como se uma memória longínqua os tivesse arrancado ao torpor do quotidiano e os lançasse numa viagem ao passado. Olhos que se prendem noutros olhos que há muitos, muitos anos se perderam um no outro.
Boa sorte!
Duas palavras e dois beijos na cara foram o seu presente de despedida naquela tarde quente do mês de Junho. Um seguia em frente nos estudos para tentar ser qualquer coisa na vida, outro ficaria a repetir os insondáveis números da sempre mal-amada matemática. Foram os primeiros beijos em dois anos e os últimos do resto das nossas vidas.
Boa sorte!
E os olhos de caramelo a fitarem os meus. A saliva ausente da minha boca e as palavras que não saíam.
Não quero despedir-me de ti. Não quero deixar de te ver! - Gritou o meu cérebro e a boca a repetir somente:
Boa sorte!
Os seus dedos tocaram-me ao de leve no braço e desceram por ele como asas de borboleta, implorando que pelo menos naquele último momento, houvesse um pouco mais de mim que um desejo de boa sorte. Qualquer coisa que lhe desse uma razão para ficar. E a minha boca estúpida, torpe, incapaz, sem conseguir dar voz ao que me exigia o coração.
Como pôde ser tão difícil dizer “gosto de ti”?
Era tão fácil, parecia tão fácil dizer que não a queria perder… mas este maldito silêncio de que fui feito…
O cigarro, preso entre dois dedos da sua mão esquerda, consumia-se em volutas de um fumo quase transparente esperando uma passa que tardava em acontecer.
Os meus olhos presos na sua pele morena e nos lábios perfeitos e a certeza inabalável que nunca mais os iria ver a corroer-me por dentro como se também eu fizesse parte daquele cigarro que se consumia a si próprio.
Boa sorte!
Os olhos continuam a manter aquele tom de caramelo, apenas deixaram de refletir o brilho das estrelas que todos os jovens transportam consigo até que alguma volta da vida madrasta os desengane e os prenda irremediavelmente neste solo estéril de sonhos.
Continua a vestir o mesmo estilo junkie, camisa de alças e saia comprida o que hoje, um casaco de malha bege cobre-lhe os ombros. O cabelo escuro mantem o corte simples pelos ombros e um colar de contas multicores descai-lhe sobre o peito. Falta-lhe o cigarro a arder entre os dedos indicador e médio para o quadro ficar completo.
Os óculos de ver ao pé que agora sou obrigado a usar embaciam-se-me de saudade.
Deus, só hoje percebo como a amei.
Chelas!
A bola entrou directamente no cesto sem tocar no aro. Foi um gancho perfeito da área dos três pontos. Inigualável, irrepetível, digno de fazer levantar um bruááá na bancada.
O Acácio, que me cobria e fazia dois de mim em altura, baixou os braços e abanou a cabeça frustrado “rançoso! Não fazes outra!” grunhiu.
Não fiz, não quis fazer, não precisava fazer. De braços abertos em cruz e corpo direito como um toureiro depois de cortar uma orelha em Madrid, dei-me ao prazer de ouvir uma bancada inteira aplaudir-me de pé. Não são muitos estes momentos de glória na vida de uma pessoa que não sabe fazer nada particularmente bem, portanto foi de aproveitar.
Depois perdemos, perdemos por muitos, mas no final do jogo e durante as semanas seguintes ninguém falava do resultado do jogo apenas do meu gancho de direita
À saída, um empurrão de ombro pelas costas e um “Parvo, fizeste-me aplaudir-te!”.
Penso que foi a primeira vez que olhei para ela, quero dizer, olhar a sério. E em dois segundos compreendi que tudo o que eu queria na vida estava ali, à minha frente, vestindo uma camisa de alças branca e uma saia de padrão psicadélico que lhe dava pelos tornozelos.
Os olhos de caramelo brilhavam-lhe com uma alegria incontida… naquela altura ainda tinham as estrelas dentro deles. Nos meus é que já se estavam a apagar.
Pergunto-me se ainda cheirará a praia, a ondas a marulhar na areia e a creme Nívea, como naquela tarde de Junho.
Baixou os olhos, não sei se me terá reconhecido. Mudei, mudei muito. Penso eu, sei lá. Quando me vejo ao espelho ainda encontro aquele puto de t-shirt e jeans coçadas, feito à imagem de um James Dean sem eira nem beira. Mas sei também que os meus olhos, tal como as minhas memórias, aprenderam a ser benevolentes comigo e a desculpar os meus erros.
Nunca tive a boa sorte que ela me desejou, como a poderia ter se parte de mim morreu naquele Verão de 88.
Separam-nos naquela carruagem apinhada de gente anónima cinco metros e trinta anos. Uma grande distância para ser percorrida numa só vida.
Olivais!
Levanta ao olhos para mim, afinal ainda tem o pó de estrelas lá no fundo. Os lábios mais perfeitos do mundo entreabrem-se e com um sorriso formam duas palavras em silêncio:
Boa sorte!

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