Sim, Sim, Sim,

 


Estive ontem a ouvir em segundo plano na Antena 1 enquanto esfregava o tabuleiro do forno um programa muito interessante que se chana Cinema. Como é na rádio, não sei se se chama Cinemax ou Cine Max, no entanto e como foneticamente é igual para o caso tanto faz. Segundo depreendi, o objectivo deste programa é afastar definitivamente os ouvintes das salas de cinema tal é a maçada de ouvir aquela conversa. Ontem o convidado foi o realizador Pedro Magano e o tema recaiu sobre dois dos seus filmes que vão estrear. Um, não retive o nome, o que é uma pena pois não me permitiu reservar os bilhetes com a devida de antecedência e certamente hoje, se o tentar fazer, as sessões estariam esgotadas até ao fim da sua exibição nos cinemas. O outro filme é uma curta-metragem e chama-se Luana (recordo-me bem deste pois é o nome de uma amiga da minha filha) e irá dar hoje na RTP 2 a partir da meia-noite. Como hoje mudou a hora e o programa foi ontem, não sei se seria à meia-noite de ontem, vinte e três horas de hoje, ou meia noite de hoje, 1 hora da manhã de ontem. Por via das dúvidas não vou ver.  

Mas o que me levou a vir aqui maçá-los num Domingo de sol e temperatura amena, foi aquela conversa interessantíssima, onde o locutor explicava ao Pedro Magano o seu próprio filme, a dialética da personagem, a personificação da morte que aparecia ao rapaz, etc., etc. e o Pedro, (acho que lhe ele não se ofende se o chamar assim), respondia passados um ou dois segundos com um “Sim, sim, sim”, certamente muito admirado por ser tão esperto e ter pensado aquilo tudo, não se lembrava mas se o entrevistador dizia que sim era  porque sim, quem era ele para o contradizer.

Isto fez-me lembrar um episódio que se passou comigo e que já aqui contei, no entanto vale a pena recordar. Corria o ano de 72 pra 73, quando, numa aula de trabalhos manuais, a professora nos desafiou para fazermos uma peça qualquer em barro.  Toda a pequenada ficou eufórica e armados de stecs de madeira vai de começar a fazer cinzeiros, tacinhas rombas e outras porcarias do género. Eu disse todos? Não, todos não! Eu, munido de uma imaginação sem limites e de uma arte que não possuía, imaginei-me de imediato e esculpir uma cena de guerra, com um soldado de joelho arrojado ao chão e metralhadora em punho  a tentar derrubar um avião de combate que sobrevoava aquela cena de carnificina preso ao solo por um arame. E vai de meter mãos e stecs à obra.

Ao fim das duas horas que tínhamos destinadas para o trabalho começaram a surgir à minha volta os primeiros cinzeiritos e as primeiras tacinhas tortas como o catano e o meu cenário de guerra a meu ver também estava óptimo, para melhor julgar afastei-me dois passos e voltei a olhar para a minha obra de arte. Bem, pelo menos via-se que aquilo era lama, quanto a isso não podia surgir qualquer dúvida. Já quanto ao soldado, à metralhadora e ao avião era uma questão de interpretação mas também estavam lá, no entanto comecei a recear que nem a professora nem os meus colegas fossem portadores da sensibilidade artística que lhes permitissem ver o que jazia debaixo daquela amálgama de barro e água. Picasso também não foi entendido logo à primeira e talvez eu também não o fosse. Desesperado com a potencial ignorância dos meus colegas e prestes a terminar o tempo, pedi a Deus que um dia me pudesse perdoar por ter negado à humanidade tão sublime visão e esborrachei de uma vez aquela que seria a minha obra-prima e com um stec  cortei um perfil tosco que pintei  rapidamente a guache cor de rosa que deu à figura o ar de um inglês vindo da praia da Maria Luísa. Não satisfeito, acrescentei a preto uns cabelos e uma barba.

Ao aproximar-se de mim para visionar o trabalho, a professora parou uns segundo e disse “Ai que bonito, é Jesus, não é?”. “Sim, sim, sim”, respondi eu.

“Sim, sim, sim”, respondia o Pedro  Magano a cada intervenção do entrevistador que lhe explicava o que ele próprio teria querido dizer. Mas para não ficar pelos “Sim, sim, sim”, lá se atrevia a atirar para o ar alguns bitaites sobre a inospitalidade da Ria de Aveiro e porque é que a morte tinha aparecido sobre a forma de um pássaro ao menino, ou na forma de um menino ao pássaro e umas curiosidades muito engraçadas sobre o filme.

Isto confirmou-me a superioridade dos europeus e muito particularmente dos portugueses em relação aos americanos em questões intelectuais, os portugueses, quando pensam num filme pensam em dialética, realismo, inospitabilidade, transfiguração de realidade… já os realizadores americanos quando pensam em fazer um filme dizem simplesmente “vamos por uns gajos à pera e já está”

Resultado: Filmes portugueses, uma média de 10 pessoas por sessão e um prejuízo de 4 milhões de euros, filmes americanos salas esgotadas, reposições em Tv’s de todo o mundo e lucros de 170 milhões de dólares

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