Eu, parvo, me confesso

 


Segundo consta, quando a minha avó Maria me viu abrir os olhos para este mundo, as suas primeiras palavras terão sido “Não será um homem grande mas será certamente um Grande Homem”.

E durante a minha infância foram-me repetindo regularmente esta frase epistolar como se tivesse sido o próprio Nostradamus a proferi-la e, como tal, absolutamente inquestionável, pelo que se me adivinhava um futuro de Grandes Obras que inevitavelmente me colocariam à mesma altura, ou mesmo mais alto ainda, que as mais eméritas figuras da História da Humanidade. 

Como ainda era criança não sabia bem em que área é que me viria a destacar, mas se assim me tinha sido fadado pela minha avó, nalguma das sete artes seria ou até mesmo, dada a minha grandeza, poderia até dar início a uma arte até então desconhecida.

Já na pré adolescência, nas longas tardes Verão que se alongavam ainda mais pela ausência dos meus amigos que tinham ido veranear para algum lado e me deixavam a mim os sobejos de umas viagens ocasionais à praia de Carcavelos com os meus pais e a minha irmã, via-me deitado na relva com uma palhinha no canto da boca a ouvir das cigarras que se mimetizavam nos troncos dos choupos que me sombreavam, ou pendurado nos ramos da minha árvore entre as próprias cigarras, a perguntar a mim próprio qual seria o caminho que a minha grandeza iria tomar. Não sabia! 

Dava conta que não era um aluno particularmente brilhante na escola, as coisas iam-se fazendo, tinha-me safado com a classificação de “Bom” no exame da 4ª classe e a minha saudosa professora Cacilda comoveu-se pois nunca esperara que eu conseguisse tirar uma nota tão boa. Na altura aquilo pareceu-me um elogio, agora, com mais uns anos de sabedoria e reflexão em cima dos ombros, já não tenho bem a certeza que o tenha sido. Seja como for tinha tido a melhor nota de todos os examinandos em ex aequo com o Resende, o rapaz mais burro da turma que naquele dia parecia ter sido tomado por um espírito demoníaco com necessidade de se afirmar no mundo da matemática e que transformou aquele cabeça normalmente cheia de bolinhas de esferovite num matemático brilhante que até contas de cabeça conseguiu fazer. Passámos os dois com a classificação de “Bom”, deixando à distância aqueles pobretanas que durante quatro anos tinham sido os Kapos da professora, sempre dispostos a denunciar os colegas quando estes não sabiam de cor e salteado em quantas e quais estações e apeadeiros parava o comboio correio na sua viagem desde o Barreiro até Tunes e que no exame não tinham passados de uns reles “Suficiente” ou até mesmo de alguns “Medíocre” que os obrigavam a repetir o ano e, quem sabe, a levar como bónus pela sua ineficiência a célebre “carecada” quando chegassem a casa, conforme era hábito dos pais naqueles tempos como incentivo aos filhos para estudarem mais um pouco no próximo ano e, ao mesmo tempo, mostrar com orgulho ao resto da comunidade que o filho era um burro inveterado. O Paulo Jorge, o Hermínio, o Gaspar, o Raposo, o Américo, o Humberto, o Coelho, todos eles corridos a suficiente ou medíocre. Só gajos pois, que as meninas, essas, andavam na escola no período da tarde que era para não haver misturas naquela escola da Voz do Operário situada no número 22 B da Rua do Açúcar, em Marvila.

Passada esta fase e já no ensino preparatório, parecia ter confirmado as minhas suspeitas de que o estudo implicava uma perda de tempo significativa que me impedia de gozar tudo o que o mundo punha à minha disposição. História, Português, Matemática, Geografia e Francês, esta última com os famigerados personagens literários, Nicole, Robert e Patapouf a maçarem-me com os seus “Robert va à l’école, Patapouf, est un chien”, eu queria lá saber se iam à escola ou se Patapouf era um cão. Safava-se no meio disto nisto tudo a Dominique, que não era uma personagem do livro de leitura, mas própria professora de francês, que para nos incentivar ao estudo da disciplina usava uma mini-saia que só não deixava ver o Palácio da Pena porque estava nevoeiro em Sintra. 

Por oposição a estas execrandas matérias de estudo, gostava de Trabalhos Manuais, Desenho e Ginástica, que não tinham “pontos”, e também Religião e Moral que me proporcionava uma boa ocasião para estar ali sossegado a pensar noutras coisas que me interessavam mais. Ah, e também gostava das férias, gostava mesmo muito das férias, e, para não dizerem que sou preguiçoso, também admito que gostava daqueles dez ou quinze dias anteriores às férias, principalmente ao que antecediam as férias da Páscoa quando me chegava ao nariz o delicioso aroma das amêndoas cobertas de chocolate que um vendedor preparava à porta do supermercado Pão de Açúcar junto à escola. Nunca provei nenhuma porque eram caras mas seriam boas de certeza.

Dois anos volvidos, com uma abençoada passagem administrativa decretada pelo Governo pós 25 de Abril, a quem aproveito para deixar aqui os meus mais sinceros agradecimentos, deixei para trás, primeiro a velha Fernando Pessoa a cair de podre, tarefa em que era auxiliada por equipas de miúdos ciganos que, quando por ali passavam e não estavam entretidos a assaltar-nos, deitavam umas pedras aos vidros quebrando-os em mil estilhaços e obrigando-nos a procurar refúgio debaixo das secretárias (obrigado também a todos os ciganitos que da mesma forma obrigaram a professora Dominique a abrigar-se debaixo da sua secretária), e depois a Damião de Góis com os seus pavilhões desenhados de acordo com um modelo que tanto sucesso tinha tido uns anos antes em Birkenau, e fui admitido na Escola Industrial Afonso Domingues.

Ali, em substituição dos barracões prefabricados e telhados de lusalite, recebia-nos um imponente edifício de três andares, devidamente telhado, com salas de aula enormes equipadas umas com secretárias, outras com estiradores de desenho inclináveis, laboratórios de química, biblioteca, sala de estudo, etc. Não satisfeitos com isto tudo dava ainda apoio a este edifício principal uma correnteza de oficinas com mais de 100 m de comprimento, onde tínhamos de entrar equipados de fato de macaco como aqueles anormais do filme Charlie e a Fabrica de Chocolate, diversos campos de jogos, um ginásio e um refeitório nos quais quase cabiam a Fernando Pessoa e a Damião de Gois se se apertassem um pouquinho, se bem que estes dois últimos recentemente alvos num incêndio de grandes proporções, nos limitassem em termos de actividade física, fizesse sol ou fizesse chuva, a correr pelas ruas de Xabregas e do Beato atrás do Mini do professor que fazia o favor de não exceder os 30 km/hora para não nos deixar muito para trás e, em termos de almoço, a optar por uma sandes desenxabida no bar da escola que o Santos geria como um ditador de um metro e sessenta, acertando-nos nos dedos com a temível pinça de bolos quando fazíamos muito barulho a tentar comprar uma mísera carcaça com queijo ou fiambre, ou, mais saudavelmente e bastante longe da pinça do Santos, nas hortas que ficavam em frente à escola, a comer ao ar livre qualquer coisa que tivéssemos levado de casa. 

Mas, mais importante que o edifício principal, que as oficinas, que o ginásio, o refeitório e o bar do Santos, era a nossa querida e saudosa D. Argentina que vendia bolos dentro de uma alcofa à porta da escola e embora não pudesse ser exactamente considerada um equipamento oficialmente disponibilizado pela escola aos seus alunos, era certamente uma figura indispensável para repor os nossos níveis de glicémia diários. Recordo com saudade as deliciosas rochas, as macias almofadas recheadas com creme de manteiga e cobertas de um caramelo que estalava sob os nossos dentes, as gordas e densas fatias de bolo podre e as saborosas cornucópias que delicadamente mordíamos na ponta mais fina para podermos soprar o creme nas ventas uns dos outros. Como se vê eram brincadeiras muito lúdicas que formavam a nossa personalidade e ainda hoje não me aproximo a menos de dois metros e cinquenta de quem esteja a comer uma cornucópia.

Quanto à área de estudo que estava seguir, para dizer a verdade não sabia bem porque tinha escolhido a indústria ou mesmo esta escola em particular que ficava longíssimo de casa. Acho que a ideia inicial era poder mexer em produtos químicos e fazer experiências que me abririam as portas dos segredos da Alquimia. Se na altura eu soubesse que desvendar estes segredos implicava entrar às 08:00 da manhã e sair às 18:00 todos os dias da semana e aos sábados das 08:00 às 14:00 ou das 08:00 às 16:00 em semanas alternadas e ter de redigir relatórios enormes a explicar porque é que um pozinho qualquer misturado com uma gota de água produzia um composto azul em vez de vermelho causando com este resultado imensa euforia ao professor, teria pensado noutra escola. 

A D. Dinis por exemplo, que ficava mais perto de casa e tinha miúdas que era coisa que naqueles tempos ainda faltava na Afonso Domingues porque a indústria era coisa de homens com H grande ou para idiotas como eu.

Naquele primeiro ano, para além de juntar pozinhos com resultados insignificantes, a única coisa que aprendi nas oficinas foi limar um paralelepípedo de ferro que o professor teimava em querer que ficasse com uma determinada espessura, não ia servir para nada, não ia ter utilidade alguma e tanto fazia que ficasse com 13, 14 ou 15 milímetros, mas o professor teimava que tinha que ter treze. A mim, com as dimensões originais, parecia-me perfeito pelo que estranhei que o professor não quisesse recebe-la de volta depois de eu lhe passar duas ou três vezes com alima. Não, queria com treze milímetros, nem mais um, nem menos um, era treze! Três meses de fato de macaco e lima na mão a limar para a frente e para trás e o raio da peça a insistir em não querer nem ficar direita nem com as medidas certas. Quando ficava direita, o professor descobria um ínfimo risco na superfície, quando disfarçávamos o risco com a murça, o professor assestava-lhe o peclice e levantando-a em direcção à luz dizia que estava torta. Três meses a limar, três! 

Infelizmente, no final do período, depois da avaliação, desci resolutamente a Duque de Lafões até ao Beato, atravessei a avenida e atirei com a peça, nesta altura já só com 7 milímetros, para o rio Tejo onde se afundou para todo o sempre. Se não o tivesse feito hoje certamente seria uma peça de arte digna de estar exposta num qualquer museu destinado às vítimas do sistema de ensino. 

Foi também nesta escola e neste primeiro ano, que passei a não apreciar tanto a disciplina de Desenho como até então. Agora chamava-se Desenho Tecnológico, porque em vez das bolas desenhadas a compasso e dos desenhos livre esborratados a guache “Cisne” que fazia no ensino preparatório, passei a desenhar fornos altos com uma precisão milimétrica, o que me obrigava a carregar com réguas T, esquadros de vários ângulos, escantilhões, duplos decímetros, transferidores, tira linhas e tinta da china. Nunca soube o que era Forno Alto mas tinham um aspecto horroroso. 

Também deixei de gostar de Religião e Moral. Não por culpa minha, mas dos meus estimados colegas que, quando o professor nos convidava a escolher o tema da aula, berravam à uma entre olhares cúmplices e sorrisos velhacos: Sexo!

Sexo! Ouvir um padre falar de sexo durante 50 minutos é doentio e de um aborrecimento tal que só pode ser equiparável a ouvir um realizador de cinema europeu falar do seu último filme que ganhou um Urso de Ouro no festival de Berlim  “..dicotomia paisagística e a nostalgia do ser que encontra na paisagem o seu eu e a ligação intrínseca à terra e às gentes que a povoa. O mundo, a essência da vida que se escoa ”, e o entrevistador a tentar passar a mensagem que está a perceber o que ele está a dizer “sim, mas a história de Joana quando diz que tem que ir lavar a roupa…”, pergunta ele e a sonolenta personagem continua com voz pastosa “o ir lavar a roupa representa o partir, um regresso inverso ao sentimento pueril da infância que se revela a cada momento e a cada gesto. O anel, o superlativo do sujeito a falar com a sua própria consciência…” um horror! Faz-nos chegar ao ponto de desejarmos tornar-nos seminaristas e recolhermo-nos no mosteiro de São Martinho de Tibães para uma vida de clausura. 

Bom, mas deixemos estas analogias que nada adiantam á história e vamos lá á questão principal. Encontrava-me então nesta altura à beira da adolescência e ainda não vislumbrava bem de onde apareceria a minha grandeza. Na escola era o que era e nas minhas actividades extra curriculares também não me parecia destacar muito. No futebol era possuidor de uma finta sublime que nos dias de hoje faria envergonhar o Cristiano Ronaldo… dentro da minha cabeça, claro. As fintas saíam-me perfeitas da cabeça mas no seu percurso até aos pés, que tinham como função pôr em prática as ordens do meu cérebro, sofriam uma mutação extraordinária e transformavam-se num autêntico desastre. Havia uma falta de comunicação incrível entre pés e cabeça, a cabeça dizia aos meus pés “com uma finta de corpo simula que vais para direita, passas pela esquerda, foges para o meio e rematas rasteiro para o canto inferior esquerdo da baliza” e os meus pés percebiam “simula que vais para a direita, tropeças e deixas a bola sair do campo pela esquerda e tentas arranjar uma desculpa convincente para os teus amigos a explicar porque fizeste tamanha parvoice”. Nunca se entenderam estes dois.

Quanto ao que um dia me iria tornar grande perdurava a incógnita… continuava a não descortinar em que matéria ou arte alcançaria a grandiosidade e, para ser sincero, as coisas começavam a parecer-me mal paradas.

No entanto para tudo há um dia e uma hora, o que é nosso a nós virá e a justiça divina pode tardar mas não falha, que são o paradigmas dos calaceiros que apelam a eles a torto e a direito para não fazerem nada pela vida.

Pelos meus treze ou catorze anos, como não tinha nada planeado para aquele dia, resolvi encher-me de coragem e confessar a uma garota que gostava dela. A resposta foi simples e directa mas revelou uma perspicácia da qual, por muito que gostasse dela, não a julgava possuidora e que hoje, cinquenta anos passados, ainda recordo como se tivesse sido acabadinha de sair dos seus lábios: “Grande Parvo”. 

Fiquei estupefacto. Então era aquilo. Eu era parvo. Não um parvo normal como tantos outros que me rodeavam, mas um “Grande Parvo”. Admirável! Quem diria que depois de tantos anos à procura da minha vocação, de um primeiro impulso, de um clique que me catapultasse para a grandiosidade, a resposta estivera sempre diante dos meus olhos e via-a sempre que me olhava no espelho: Eu era parvo! E foi aquela garota de olhos e cabelos castanhos que mo disse assim olhos nos olhos e de pastilha elástica de morango na boca.

Quero dizer, não terá sido exactamente uma surpresa, já tinha algumas suspeitas da coisa porque não tinha sido a primeira pessoa a chamar-me parvo, era até um costume que eu considerava bastante enraizado na cultura portuguesa, com particular preponderância na ala feminina da humanidade, mas chamarem-me “Grande Parvo” com uma convicção tão forte, com uma certeza tão grande, foi a primeira vez que o ouvi e dai a importância desta rapariga para o meu desenvolvimento pessoal e emocional. Nunca lho disse, nunca lhe agradeci pessoalmente, mas deixo aqui a minha sentida homenagem.

No entanto, sendo um parvo simples ou um grande parvo, alguma coisa me tinha ficado retido das lições de química: “Não podemos tirar conclusões definitivas com base numa única experiência” e, motivado por esta minha veia científica, por esta apetência para a descoberta, decidi-me alguns meses depois a repetir a experiência alterando apenas e de forma ligeira um dos reagentes da solução aquosa que, desta feita, era mais magra e de cabelos escorridos. E, para minha grande satisfação, os resultados foram idênticos aos obtidos na experiência anterior: “Grande Parvo”. A principio ainda fiquei na incerteza se a notícia de eu ser parvo se tinha difundido entre as miúdas do bairro ou se era mesmo a opinião dela, mas, analisada a frio a espontaneidade da resposta, concluí sem hesitação alguma que era mesmo a opinião dela.

Confirmado então o que até aí tinha sido uma mera hipótese, a partir daquele momento, para além de preguiçoso, entretive-me a ser parvo e, sem falsas modéstias, acho que o consegui fazer com bastante sucesso ou, pelo menos, com um sucesso relativo.

No entanto por qualquer motivo que ainda desconheço ser parvo não me estava a fazer feliz nem a dar o devido destaque social que eu imaginava me pudesse vir a dar. Pelo contrário, via os meus amigos que não passavam de uns sofrivelmente parvos parecerem ter mais atenção das garotas do que eu que era um “Grande Parvo” o que para mim era um contra-senso absurdo. Deduzi então que ser Parvo com letra grande se calhar não era assim tão bom. Aliás, como o António Raminhos ainda não tinha nascido, o único parvo que eu conhecia e tinha sucesso era o Jerry Lewis e mesmo a esse já não estava a achar muita graça.

Mas em não querendo ser parvo o que me restaria? Na escola continuava um aluno apenas suficiente a rasar o medíocre e que viajava com uma velocidade surpreendente entre os doze e os oito valores, chegando atingir os sete valores quando me esforçava bastante. Em Matemática era uma autêntica nódoa e, na melhor das hipóteses, só percebia a matéria de um ano lectivo no ano seguinte, fracções, conjuntos com chavetas, uniões, conjunções, era uma completa esquisitice. Quem é que queria dividir um bolo por três? Na minha rua cada um dava uma dentada e, no fim, as migalhinhas que sobrassem ficava para o dono. Assunto resolvido. A este respeito diziam os professores com alguma frequência que era preciso estudar todos os dias e não apenas no dia anterior aos então chamados “pontos”, o que me parecia bastante inusitado para não dizer mesmo um absurdo, pelo que mantive sempre algumas reticências em relação a essa crença que considerava completamente infundada e sem qualquer base científica que lhe desse corpo. O que seria então de mim?

A resposta veio ao meu encontro também de uma forma inesperada e em resultado de um amargo acontecimento.

Sem que nada o fizesse prever a não ser o facto de estar vivo, o pai do Patão faleceu o que, naturalmente causou alguma consternação à miudagem pois os nossos pais tinham mais ou menos a idade do Senhor Belchior e demos conta que no lugar do Patão podia estar um de nós. 

Em resultado deste trágico acontecimento, uma ou duas noites depois, achou-se a malta reunida num banco de jardim, junto à igreja de Santo Eugénio onde o Senhor Belchior estava a ser velado. Conversa puxa conversa e debaixo de uma oliveira velhinha que ainda hoje por lá existe, comecei a perorar sobre a inconsistência e volatilidade da vida e que, na realidade, esta só fazia algum sentido se nos conseguíssemos abstrair da inevitabilidade da morte. Falei de Deus, seria Ele efectivamente todo poderoso e todo misericordioso? Não me parecia. Se fosse todo misericordioso não permitiria que as coisas acontecessem desta forma a não ser que não fosse todo poderoso e não o pudesse evitar. Por outro lado, se fosse todo poderoso e não evitasse estes acontecimentos é porque não era todo misericordioso. Ambas as coisas não podiam coexistir. E tão bem defendi minha posição que o Senhor Carreira que também estava presente com a sua esposa e que desempenhava junto de nós o papel Grilo Falante da história do Pinóquio, isto é representava a boa consciência que faltava à nossa juventude, aproveitando uma pausa no meu discurso aconselhou-me com voz sábia a seguir o ramo da Filosofia.

Filosofia, como é que nunca tinha pensado nisso? Filosofia era bom, pelo que eu tinha visto era só estar sentado a olhar para as coisas e de vez em quando atirar uns bitaites para o ar para ver se pegavam e isso eu conseguia fazer na perfeição. Na minha opinião Deus tinha sido o primeiro filósofo e saíra-se bem. Não matarás! E pumba, um gajo matava e lá de cima saia um raio que o fulminava de imediato Decidi-me assim a ser filósofo a tempo inteiro e só ser parvo nas horas vagas que, diga-se de passagem, eram muitas.

Foi assim com grande expectativa que aguardei que me fosse apresentada a disciplina de Filosofia dali a poucos meses. 

A meu próprio custo aprendi que Filosofia e ser filósofo estão tão perto um do outro como os pinguins dos ursos polares, encontram-se em pólos opostos, filosofia não nos ensina a desenvolver a nossa filosofia, não nos ensina a pensar nem a desenvolver um espírito crítico, pretende apenas tornar-nos especialistas em falar de filósofos que já morreram e manter vivas as suas diversas correntes de pensamento por muito descabidas que sejam. E vai de ouvir falar de Platão, Descartes, Sócrates, Aristóteles, Kant, Hegel, Tales, Heraclito, Pitágoras, Epicuro, Nietzsche e outros tantos e em tal número que eu estava convencido que na antiguidade para cada habitante havia dois filósofos cujo único propósito da sua existência era virem-me atormentar mais tarde com as suas ideias. 

E aquilo tornou-se muito difícil para mim, não a matéria em si mas manter-me acordado, pelo que a expressão, “ouvir falar” que usei acima é apenas uma metáfora, uma força de expressão, pois passados dois segundos da professora acabar de escrever o sumário e começar a falar daqueles seres, já estava eu estava muito longe a garatujar o tampo da secretária de madeira. 

E foi através de este rabiscar na madeira, numa história que para aqui não tem muito interesse, que vim a conhecer uma loira lindíssima chamada Dina, que frequentava uma turma do 9º ano e que morava na Madredeus que era logo ali. 

Um dia, num intervalo entre Físico-Quimica e outra disciplina em que a professora teimava em ensinar-me Inglês, disse-lhe que gostava dela e adivinhem qual foi a resposta dela. Exacto! 

Era um facto indesmentível que, com filosofia ou sem filosofia, as raparias mantinham a unanimidade de opinião sobre a área onde eu era e seria sempre figura de destaque, ser parvo! Pelo que, com toda a certeza, a Filosofia não estava a dar os auspiciosos resultados que o Senhor Carreira visionara para mim anos atrás. Desanimado com tanto esforço e tão poucos resultados, vi a minha relação com esta disciplina terminar abruptamente quando uma professora, já no 11º. ano, me fez uma pergunta qualquer sobre o pensamento de Sócrates e eu perguntei com o todo o respeito se ela não preferia que em vez de lhe falar sobre o pensamento de Sócrates lhe falasse sobre o meu. Pareceu ficar surpreendida e sensibilizada com a pergunta mas, ganhando impulso pelas gargalhadas dos meus colegas que eram uns ignorantes e não perceberam a profundidade da minha proposta, pôs-me fora da sala e escreveu qualquer coisa a vermelho na caderneta.

No entanto, longe das risotas e das palhaçadas do meus colegas, estou convencido que terá percebido e valorizado a minha questão, tanto que, apesar das minhas notas sofríveis nos testes, me dispensou do exame final com um 13. Outra versão propagada pelas más línguas defende que apenas terá sido porque tinha a certeza absoluta que eu não ia conseguir responder a nada sobre Descartes, Platão ou sobre quem quer que fosse, simplesmente porque não estava interessado na sua visão do mundo mas apenas no sentido que eu tinha da vida. No entanto prefiro pensar que tenha sido a primeira hipótese.

Achei-me assim aos 17 anos de volta à estaca zero no entanto a Dina tinha-me feito perceber com toda a certeza que dispensava bem ser um Grande Parvo para o resto da minha vida.

Então não servindo para filosofia e não querendo ser um Grande Parvo tinha que encontrar outra vocação e num dia de Junho, encontrei a “preta”, ou melhor, ela encontrou-me. 

À porta da oficina de Electrotecnia os seus olhos fixaram-se em mim e pediu aos meus colegas que a rodeavam como moscas que me apresentassem. Não era verdadeiramente preta, era mais uma mulata clara, fina de corpo e de traços fazendo-me lembrar de imediato a Coco da série Fame que por aquela altura corria na Televisão e por quem eu nutria uma especial simpatia. O único senão era gozar da fama de puta e de já ser ter comida por todos os alunos da escola excepto por mim. 

“A tua sorte é ser o último dia de aulas senão não me escapavas”, disse-me fazendo jus à sua reputação. Entre as risotas dos colegas olhei-a nos olhos de um castanho esverdeado e vi que lá dentro não morava a puta de que todos falavam. Não era puta nem nunca o fora. Era apenas uma miúda que deixava que essa fama lhe assentasse sobre os ombros e a exibia como se fosse um manto de rainha apenas para ser popular na escola mesmo que fosse pelas piores razões. Olhei em volta e em vez de colegas vi uma série de aspirantes a Platões e Kants e que falavam de prazeres que não conheciam e de experiências que não vivenciaram e, por dentro, verti uma lágrima de comiseração por deles.

Nunca mais a vi.

Praia Verde, Algarve, Maria Del Mar.

Maria Del Mar não tinha sido a nossa primeira escolha que recaíra por inteiro sobre uma loirinha solitária que veraneava com os pais ao nosso lado na praia. Era caça difícil porque éramos quatro malteses, eu, o Paulinho, o Mourato e o Tenório e ela só uma e sem amigas num raio de cento e poucos quilómetros pelo que uma abordagem por quatro mariolas estaria fatalmente destinada ao fracasso. Portanto limitávamo-nos a dizer umas graçolas que provocavam uns sorrisos e pouco mais. Mas a miúda era gira.

Maria Del Mar apareceu depois, cabelo frisado castanho claro que lhe dava pelo meio das costas e pele trigueira do sol. Uma estampa e mais não descrevo porque seria desmerecer a memória dela que guardo e quero manter intacta. Tinha consigo uma irmã mais velha e uma parva.

Veio ter comigo e com o Tenório quando saltávamos à corda na areia molhada junto ao mar. Alto! Neste ponto urge fazer uma pequena pausa no relato para prestar os devidos esclarecimentos, não saltávamos à corda como dois parvinhos aos pulinhos e aos gritinhos, como poderão estar a pensar com um sorriso nesses lábios depravados. Havia uma razão para tal: tanto o Tenório como eu praticávamos de alguma forma desporto: o Tenório por frequentar o 11º ano da área de desporto e eu, de há uns meses a esta parte, entretinha-me a praticava musculação num ginásio de bairro. Pelo que, e à falta de melhor, aquela era uma actividade que nos permitia manter a forma física e quem nos via, via que percebíamos da matéria e não éramos uns totós quaisquer.

Maria del Mar também percebia e percebeu que nós percebíamos e foi ter connosco fazendo-se acompanhar pela irmã e deixando a parva sentada na areia a servir de peça sobresselente.

Faziam ambas topless e a este respeito só tenho a dizer que se a Vénus de Milo as visse coraria de vergonha e iria a correr vestir uma camisola de gola alta.

Travámos conversa e assentámos acampamento em volta delas. 

Porque demónio terá vindo à conversa estúpidas disputas regionais é que eu não sei, quem era melhor, quem era pior, e aqui o imbecil confessou, sem razão alguma que o justificasse uma vez que não conhecia ninguém na cidade Invicta, que não gostava de malta do Porto. Maria del Mar olhou para mim directamente nos olhos e respondeu que a maior parte dos seus amigos era do Porto. Tentei emendar o deslize, que não, que afinal, analisada bem a questão, de quem eu não gostava mesmo era de espanhóis. 

Mas quem é a grandessíssima besta que diz que não gosta de espanhóis a uma rapariga chamada Maria del Mar?

“ O meu pai é espanhol!”

Já levaram com uma bigorna no estômago enquanto se encontram placidamente a dormir? Naquele momento eu levei com duas e com um martelo ferreiro.

Não havia como emendar a não ser que dissesse que não queria dizer espanhóis mas sim marcianos, mas algo me dizia que logo de seguida ela me diria que a mãe era de Marte, por isso levantei-me da toalha, dirigi-me à água e fiquei à espera que um tubarão me atacasse o que infelizmente não veio a acontecer.

Apesar das minhas palavras elogiosas, nem tudo era perfeito em Maria del Mar. Maria de Mar, que Deus dotara de uma beleza de feições irrepreensível e um corpo apenas destinado às ninfas, era também possuidora de um mau gosto atroz ou, sem fazer muito esforço, podemos mesmo chegar ao ponto de dizer repugnante, pois só dessa forma se pode conceber que não tenha caído de imediato de amores por mim e, em vez disso, se tenha deixado enfeitiçar pelo Tenório, um sujeito curto de pernas e com uma trunfa encaracolada que só lhe deixava à mostra as beiças grossas antes de depararmos com um queixo vulgaríssimo em nada comparável com o meu que tem uma covinha e tudo. Naturalmente que esta falta de gosto certamente fruto do mau sangue espanhol que lhe corria nas veias, me deixou extremamente aborrecido e com duas raparigas só para mim, já que o Paulinho e o Mourato tiveram que regressar a Lisboa: a irmã, que não tendo sido tão beneficiada pelo Criador por ter sido o esboço pelo qual Ele viria mais tarde a desenhar a irmã mais nova, não era mesmo nada de deitar fora, e a parva a quem não passei cartão algum.

Saímos à noite, o Tenório foi com a Maria Del Mar para a praia, segundo consta apanhar conchas na maré vaza, embora ele mais tarde me tenha admitido que não fora essa a ideia, e eu para a esplanada do bar sobranceiro à praia com a Maria del Mar mais velha e com a parvinha.

As coisas não correram mal de todo, aliás até estavam a correr muito bem até as duas terem decidido começar a tecer um ou outro comentário apreciativos a um ou dois rapazotes que por ali andavam.

Muito educadamente pedi licença, disse que as adorava, paguei a conta e retirei-me.

No outro dia vieram pedir-me desculpa, ou melhor a mais velha veio pedir-me desculpa. Aceitei mas já não foi a mesma coisa. Decididamente não queria voltar a ser parvo e muito menos um Grande Parvo, fiquei sem a mana mas com o orgulho intacto.

Escola Manuel Damásio. Novinha a estrear, ainda cheirava a tinta fresca e não existia sequer um papel ou beata pelo chão que nos autorizasse a conspurcar aquele espaço imaculado. Para o bem e para o mal era em tudo diferente da velha Afonso Domingues carregada de pergaminhos e de histórias. Nesta escola os pergaminhos e as histórias ainda teriam que ser escritos, primeiro por nós e depois pelos que nos seguiriam. 

Nesta escola também me chamaram parvo, foi só uma vez no final de um jogo de basquetebol numa história que já contei por aqui, mas desta vez não me importei, aliás não me importava que me chamassem parvo daquela forma as vezes que quisessem durante o resto da minha vida. Não o fizeram e fiquei ali parado no passeio a ver pela ultima vez aquela figura a afastar-se de mim dentro da sua camisa de alças amarela e na saia comprida hippie. 

Algarve, Quarteira, eu e o Manelinho estamos de olho em duas emigrantes francius que vieram mostrar os biquínis nas nossas praias antes de voltar para um qualquer subúrbio de Paris. Bonitas, bem feitas com um toque parisienne que, e desculpem-me as portuguesas, as destacava das raparigas nacionais que havia aos montes na praia. “Bora lá falar com elas”, picava o Manelinho. Eu hesitava e ele insistia “Pimentola, bora lá” e eu quase convencido. Quase, eu disse quase.

As duas irmãs começaram a devolver-nos os olhares e o Manelinho “Bora lá, Pimentola” e eu quase convencido

Um dia foi dia e ao voltar da água, em vez de ir ter com a rapaziada que estava entretida a fazer de focas no areal, sentei-me na areia ao pé dela com a água a tocar-nos nos pés. Olhámos um para o outro e puxei conversa. Chamava-se Dominique, acho eu, sei lá, mas faz de conta que sim, chamava-se Dominique como a minha professora de francês, pronto! Bonita, de cabelo curto, corpo bem feito e mais ou menos da minha idade, talvez uns dois ou três anos mais nova. A coisa começou a correr bem ou pelo menos não me chamou Grande Parvo nem sequer de parvo o que, logo às primeiras impressões interpretei como um bom augúrio ou simplesmente falta de perspicácia. A irmã passou por nós vinda da água  e sorriu, velhaca, para ela, para nós como quem diz “estava a ver que não”

 A Dominique devolveu-lhe o olhar e o sorriso como se dissesse um simpático “Baza!”.

Conversámos. Ela de pernas cruzadas e mãos assentes na areia atrás de si e eu de braços apoiados nos joelhos a perguntar-lhe de tudo e de todos como se me interessasse mais alguma coisa da vida dela para além da sua própria existência. Por fim perguntei-lhe se nos podíamos encontrar depois do jantar e ela baixou os olhos e fez um desenho na areia molhada com o indicador antes de responder.

“Volto para França esta noite”

Deixei-me cair de costas sobre a areia “Grande Parvo”, pensei.

“Grande parvo”, disseram os meus amigos em coro quando lhes contei. “Grande Parvo”, disse também o Manelinho. “Grande Parvo”, confirmei acenando com a cabeça.

No ano seguinte encontrei na mesma praia a Ivone, que, sem eu saber bem porquê, gostou de mim à primeira. Fartei-me de pensar nessa circunstância deveras insólita durante grande parte da minha vida e, acreditem ou não, ainda não descobri uma razão plausível para alguém gostar de mim. A Ivone gostou. Era filha única de um empreiteiro que, para além de uns apartamentos virados para o mar ali mesmo na Quarteira, possuía ainda alguns empreendimentos de monta um pouco por todo o Algarve. Embora não possa garantir que ela não tenha pensado nisso, a Ivone nunca me chamou parvo. Terminámos o namoro de Verão pouco tempo depois já em Lisboa sem que possamos ter encontrado uma razão plausível para tal.

Quando o meu Gerente de conta do Banco soube que tínhamos terminado o namoro, telefonou-me muito zangado e disse-me: “Grande Parvo!”

Vi-a dois anos mais tarde em Monte Gordo de mão dada com um mancebo, mas como tinha uma Canada Dry na mão, aquela que viria a ser a minha última cola da Canada Dry, não fui falar com ela e deixei-a passear-se com o imberbe efebo pelas ruas do vilarejo.

Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, na aula de Desenho e Construções Mecânicas, duas colegas, a Rosário e outra, os únicos elementos do sexo feminino da turma, olhavam para mim e cochichavam uma com a outra. Achei estranho aquele interesse, tanto mais que era a primeira vez que as via por ali. Ao intervalo esclareceram-me sobre o seu interesse na minha figura. Na opinião delas, e logo das duas, eu era muito parecido com o Bruce Springsteen. Levantei as sobrancelhas com surpresa e discretamente aproximei-me dois passos delas para ver se cheiravam a álcool. Não cheiravam.

Já em casa fui ver-me ao espelho não fosse alguma coisa ter mudado desde que me penteara nessa manhã ou na anterior, não me lembrava bem. Não, estava tudo na mesma e as parecenças com o Springsteen quanto muito estariam no facto de ambos calçarmos meias de algodão. Encolhi os ombros e pensei que as moças não seriam muito certas e certamente teriam muitas dificuldades em desenhar um cubo em perspectiva cavaleira. No entanto, anos mais tarde, ao ler uma revista da National Geographic dei conta que as cachopas tinham toda a razão. Eu era muito parecido com o Bruce Springsteen! 

Dizia o artigo em questão que a diferença genética no código do DNA entre o ser humano e os grandes macacos situa-se entre 1,2% e 1,4%, o que significa que compartilhamos mais de 98% de semelhança genética com a macacada. Por esta perspectiva, sendo eu e o Springsteen ambos pertencentes à espécie humana é muito natural que exista entre ambos um pouco mais de proximidade genética do que, por exemplo, entre mim e um gorila da floresta, talvez 98,2%, sei lá. E em retrospectiva lamentei que as duas moças não tivessem seguido genética em vez de Engenharia de Máquinas em que não sei se terão sido bem sucedidas ou não. Eu pelo menos não fui porque me vim embora no final daquele ano uma vez que andar às voltas com viscosidades de óleo, linhas de força e corrosão de materiais não me interessava nada. Talvez a minha vocação fosse outra e tracei mais uma cruz sobre o que eventualmente me faria grande.

A Maria João trabalhava numa loja de vídeo de um Centro Comercial de terceira categoria que havia na Rua Pascoal de Melo e sempre que eu passava no corredor em frente à loja, a máquina de etiquetar cassetes de vídeo parecia avariar-se subitamente porque a operadora, uma rapariga magra de corpo, sorriso que lhe corria de um ouvido ao outro e cabelos castanhos arruivados caidos em ondas até aos ombros, deixava de colocar etiquetas e começava a olhar para mim através do vidro. Reconhecendo o desespero da moça por não poder trabalhar com o afinco que lhe era habitual, e com o meu carácter piedoso a apelar à minha intervenção, achei urgente fazer-me sócio daquele clube de vídeo, obrigando a operadora da máquina a perder mais uns minutos da sua vida para olhar para mim. De perto via-se que, apesar de magra, era, digamos e sem querer parecer rude, bem constituída, pelo menos na parte que ficava dois palmos acima do balcão de vidro.

Mal tinha acabado de escrever o meu nome na ficha de inscrição já a proprietária da máquina de etiquetar me estava a convidar para ir beber um café. Sim leram bem. A rapariga, sem que fosse obrigada a isso e sem que estivesse a cumprir qualquer penitência imposta por algum crime que tivesse cometido no passado, estava-me a convidar para beber um café. Recusei, claro está!

Parvoooooooo!

Não, desta vez não. Recusei o café porque, por convicção, não bebo café mas disse-lhe que podíamos ir beber qualquer outra coisa e era eu e não ela a convidar. Era uma piada não sei se repararam, mas ela gostou.

A coisa correu bem logo de início uma vez que a moçoila era muito dada, demasiado dada até, se é que isso pode existir. E se durante os poucos meses que namoramos não fomos passar uma dúzia de vezes a noite à esquadra é porque havia pouco policiamento nas ruas o que, diga-se de passagem, era coisa que me convinha porque o pai dela era guarda prisional em Monsanto e certamente teria algo a dizer-me se eu, por acaso, passasse por lá. 

Uma tarde estávamos deitados na relva do Parque Eduardo VII quando ela do nada me confessou que, em termos carnais ou sexuais como queiram chamar-lhe, tínhamos gostos muito parecidos. Fiquei todo contente pois isso na minha perspectiva era uma mais valia numa relação, mais um ponto em comum que possuíamos, mas ela reformulou a afirmação anterior “temos os mesmos gostos” disse, dando particular ênfase à palavra “mesmos”. Pensei um pouco, franzi o sobrolho e perguntei-lhe o que é que ela queria dizer com aquilo. E ela disse-me. 

Anos mais tarde, sentados num banco de jardim, outra namorada contava-me qualquer coisa sobre qualquer coisa, de repente interrompi-a e fiz uma observação que eu julgo ter sido pertinente sobre um qualquer pássaro que por ali cirandava. Não sei se não gostava de pássaros ou se foi qualquer outra coisa qualquer porque ficou zangada “mas tu estás a ouvir? Estou-te a contar uma coisa da minha vida e tu estás-me a falar de um pássaro?”. Num misto de perplexidade e inocência olhei para ela e justifiquei-me “como é que queres que eu concentre toda a minha atenção no que me estás a dizer se há tanta coisa a acontecer em meu redor?”. Foi um argumento que, na minha opinião e sem demonstrar presunção excessiva, revelava toda uma filosofia de índole naturalista e de plena comunhão com o mundo que nos rodeia. E tão foram tão bem apresentados os meus argumentos que ela ainda demorou cerca de três dias para me deixar.


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