Puto

 


Na sala, envolvida numa penumbra quase escuridão, pessoas escuras, vestidas de escuro, velavam em vida o corpo que repousava no sofá. 

As palavras, quando as diziam, eram sussurradas como se tivessem receio que uma nota mais alta tivesse o condão de acelerar a doença.

“Estás bem?”, “Queres mais uma almofadinha?”. E o cansaço espelhado naqueles olhos de quem sabe e ao mesmo tempo recusa a verdade.

“Agora vou só fechar os olhos um bocadinho”

Fecha sim, fecha os olhos. Retira-te para um sítio onde não haja pessoas escuras, vestidas de escuro a velarem-te quando ainda respiras. Retira-te para um sítio com sol. Olha, para o Malhão onde costumávamos ir à pesca…. onde costumávamos ir à pesca… mentira! Fui contigo à pesca quatro ou cinco vezes porque ainda havia muito tempo. Mentira, não havia.

“Eu sei que vou morrer!”, dizes com uma calma e uma certeza que desarma e destroi. Não há força para te contradizer

E eu sem nada sentir, ou pelo menos sentir com a grandeza que a situação exigiria. A morte não existe, falas-me da morte e eu só sinto um buraco no peito cavado por uma ausência antecipada.

Nunca soube porque me consideravas uma espécie de herói, bela merda de herói que nem sequer consegue sentir como deve ser aquilo que te está a acontecer.

É curioso o que a memória nos deixa para recordação, podia-me ter deixado milhares delas, mas a mais presente é de tu a beber café com leite num bungalow que tinhamos alugado no parque de campismo de Vila Nova de Milfontes. O ritual nervoso, o rodar meticuloso da caneca, uma volta, duas voltas e eu a controlar a cena. Davas por isso e rias, depois mais uma volta, duas voltas e o café com leite emborcado todo de uma vez. Curioso o que a memória nos deixa.

Gostava de ter tirado uma fotografia contigo, abraçados como goodfellas  e um olhar sorridente para a câmara mas ainda havia muito tempo para isso. Que mentira essa em que nos permitimos viver. Agora já não vale a pena, tu já não és tu e eu já não sou eu.

No quarto, preparamos a capa de Universitário cosendo a preceito os emblemas. Em cima, em primeiro lugar, o emblema de Portugal… depois… depois que se fôda. “Foda-se! O que é que estamos aqui a fazer?”. Foi a primeira vez que disse um palavrão à frente da minha mãe “Foda-se! O que é que estamos aqui a fazer?”

Não era para a tua formatura que estávamos a pregar os emblemas e a preparar o fato.

Debruçado sobre o computador, tu e a tua mãe procuram naquelas palavras complicadas que os médicos utilizam encontrar uma publicação, só uma, em que digam que há esperança. Não encontram nenhuma.

“Eu sei que vou morrer!”.

Da porta do quarto recuo para os Olivais e tu, pequeno, com os teus sapatos novos e deitares-te de costas na reva e a levantar os pés para cima e a dizeres “Tenho uns sapatos novos!”. Foi a Milena que me contou.

Recuo até mais atrás e revejo a velha fotografia que o vizinho Pêras nos tirou pela janela - tenho de a procurar - comigo, bastante mais novo, e tu vestido com calções azuis, camisola amarela e boné azul, devias ter uns dois anos. Também lá está o Pedro, o irmão do Bolita com uma raquete de ténis na mão. Ainda tínhamos sonhos naquela altura.

Às seis da manhã toca o telefone

“Olha mano, é para te dar a notícia que todos estávamos à espera.”

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