Na ponta da língua

 


Há momentos que nos ficam!

Desta vez puxei para fora e soprei o pó a quatro recordações que guardava dentro do meu bau de memórias. São elas quatro respostas fulminantes que ocupam ae exequo a pole posicion das melhores de sempre.

Obviamente, para quem ler estas linhas e não vivenciou a situação, poderá passar desapercebido o impacto da boca mas, como escrevo para mim próprio, não me interessa absolutamente nada. 

A primeira; situo-a nos tempos em que o clã vendia aos Sábados na Feira da Ladra para depois, pela tarde fora, ir estoirar os proveitos na Feira Popular a andar de Montanha Russa e a comer farturas até à morte.

Final da manhã e arrumadas as tralhas não alienadas às costas, Paulinho, Jacinto, e eu preparamo-nos para regressar a casa. Sentado no chão e encostado ao gradeamento fica ainda o Zé "Tomate" com esperança de umas vendas de última hora. Atrás dele, a namorada massaja-lhe amorosamente os ombros.

Jacinto “O Cergal”, com a calça a fugir-lhe do cu, passa por eles, pousa o saco no chão devagar e fica a apreciar a cena até conseguir prender em si os olhos dos dois namorados. “Então? Está-te a catar, não?”

Segunda; fugidos da Afonso Domingues para um passeio à baixa, eu e os meus colegas de turma aguardávamos na paragem dos Restauradores a passagem do autocarro 46 para regressar à escola e fazermos o favor de frequentar mais algumas aulas.

Na paragem estava eu, o Homem de Sá (sim, esse mesmo) e o Hernani, putos entre os dezasseis e os dezassete anos, os outros vadiavam espalhados pelos arredores do Palácio Foz fazendo não sei o quê mas presumo que fosse algo muito construtivo.

Vindos dos lados do Condes em direcção ao Paladium, dois mancebos dos seus vinte e tal anos, a tresandar a Alfama e a ponta e mola no bolso, atravessavam a Avenida a gingar à malandro.

Nuno achou de imediato que seria interessante estabelecer diálogo com as pouco recomendáveis personagens e assobiou e gritou alto “Pá!”. Os sujeitos olharam em redor à procura, provavelmente, de um terceiro elemento de Alfama que os conhecesse. Não encontraram!

Nuno assobia e grita uma segunda e uma terceira vez, e os malandros à procura mas só encontravam três santos numa paragem com o ar mais inocente do mundo até que Nuno farto de aguardar pela beatificação decide que é hora de dar-se a conhecer e desafia “É com vocês é!".

Reforçando o gingar para nos meter em respeito e com um sorriso mafioso no rosto, curvaram a 90º em direcção à paragem. “Quéque queres pá? Queres alguma coisinha é?”, perguntam ameaçadores quando chegaram ao pé de nós. “Não. Era só pa dizer que não gramamos da vossa pinta.” - responde o Nuno sem demonstrar receio algum.

Os mafiosos sorriram um para o outro saboreando já o espancamento a que iamos ser sujeitos e fizeram a tal pergunta que nunca se deve fazer sem sem estar certo da resposta que iremos receber: “Mas quantos é que são?”

“Somos quinze” - respondemos juntando-se o maralhal todo na paragem.

Terceira; eu, o Parreira e o Kikas, que Deus o tenha em descanso, sentados num banco de jardim nos Olivais. Ao longe passa um grupo de meninas. Diz logo o Kikas “Conheço a do meio!” e grita logo “Ó Fé!” que era o nome da do meio, Maria da Fé.

Maria da Fé, que pelos vistos tinha coragem e ouvidos  apurados, depois de um pequeno colóquio com as amigas, resolveram aproximar-se de nós armadas ao engate. “chamaram-me?” perguntou,

“Não!”, responde o Parreira.

“ Pareceu-me ouvir dizer Fé!”

“Estávamos a falar da Biblia!” responde o meu amigo rapidamente.

Quarta e última por hoje; no Aki de Alfragide a fazer não sei o quê, eu, o Dótor e o Mourato passeamos pelos corredores. Na secção das campaínhas está um azeiteiro já com idade para ter juizo e acompanhado da família, a tocar em todas as campanhas que lhe apareciam pelo caminho e a repetir de cada vez que tocava uma: “Não compro! Só se uma chamar pelo meu nome!” e vai de tocar na seguinte. Farto de ouvir aquela orquestra sinfónica em Si bemol e a mesma parvoice vezes sem conta, virei-me para o toucinheiro armado em engraçado e disse: "Olhe, só se for uma que diga Bim...bo!"

Está feito! 

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