Silêncios e palavras
Anos atrás, uma amiga minha, senhora fina e de boas famílias, agora com 86 anos, confessou-me numa conversa que, tal como esta, surgiu do nada após uns minutos de silêncio.
Que nunca tinha esquecido o rapazinho que fazia as entregas da mercearia que conhecera de vista quando era criança. Conhecera de vista porque os pais nunca lhe permitiram conversas com aquwle rapaz de casta inferior. Fôra o seu primeiro amor.
Outros amores, naturalmente, se lhe seguiram ao longo da vida e muitas vezes a imagem daquele rapaz segurando a alcofa das compras e a assobiar pela rua se lhe terá subtraído da memória. Mas naquele dia, quando fala comigo, com os olhos boiando em lágrimas de saudade, é dele que fala, daquele amor infantil de quem nunca lhe permitiram saber o nome sequer.
Que coisas são estas que se alojam dentro de nós e de quando em quando nos saem em palavras ditadas pelo coração em conversas vindas do nada e após prolongados silêncios.

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