O Açordas
Por vezes gosto de pensar em mim Como um fiel depositário de recordações, Pedaços de vida que alguém deixou a congelar Na criogenia da minha memória. Hoje, sem saber porquê, recordei o Açordas Demorei algum tempo até conseguir recordar o seu nome verdadeiro. Alberto, chamava-se Alberto! Mas para nós era, desde sempre. o Açordas. Puto beirão, rijo e de cara sardenta o seu destino seria traçado logo de criança pequena. Sem posses para sustentar mais um filho, os pais, lá de uma pequena aldeia da Beira Interior, o entregam à criação de uns tios de Lisboa. Nunca o vimos lamentar-se de nada. Um homem é como tem de ser! Puto rijo cerrava os dentes e metia sempre o pé à bola. Porque um homem tem de ser rijo e não pode virar as costas a nada. Um homem não chora. Resistia a tudo o Açordas. Resistia a tudo, menos à corrente de um rio da sua terra que um dia, tendo-o de visita, o arrastou nas suas águas para um lugar onde as pessoas já não precisam de dar o corpo às bolas chutad...